terça-feira, 12 de junho de 2007

Contornos da Guerra colonial, Angola 2

Guerra em Angola 2



 


Contornos da guerra em Angola 2


 


 TOMADA DE NAMBUANGONGO


 


Desde 10 de Julho até 9 de Agosto, a operação “Viriato” envolveu várias centenas de militares e muitas dezenas de máquinas e viaturas para concretizar o mais importante objectivo da reocupação das povoações saqueadas pelos bandidos da UPA, dirigidos pelo terrorista Holden Roberto. Percorrendo um longo e difícil caminho, os homens do Batalhão de Caçadores 96, integrados nas Companhias de Caçadores 115, 116 e 117, chegaram a Nambuangongo onde se instalaram. Ainda nessa tarde, hastearam a bandeira portuguesa na igreja da povoação, cuja torre estava bastante danificada e apenas o alpendre que cobre a entrada se apresentava sem estragos. A povoação, situada num planalto, estava deserta.


Nos últimos 100 quilómetros, os combatentes deste batalhão tiveram vários reveses, desde Quibaxe, passando pela ponte, que foi reconstruída sobre o rio Danje. E, no profundo vale do rio Luica, onde mais uma ponte foi reparada, viram-se confrontados com as árvores tombadas sobre a picada; a força dos homens e das máquinas removeram mais esse obstáculo vindo da basta vegetação que marginava o caminho; até às portas de Mucondo e em Quincuzo sofreram fortes ataques dos bandoleiros. Logo após Muxaluando e até ao rio Onzo, continuaram os ataques cada vez mais raivosos por verem que nada fazia recuar o batalhão de caçadores 96. Os últimos cinco quilómetros foram os mais terríveis, pois o desgaste dos homens e das viaturas era evidente e as baixas começavam a causar danos psicológicos. Sete militares sacrificaram a própria vida, enquanto 21 ficaram com as marcas na carne.  


         


  - Em 12 de Agosto de 1961“Operação Quipedro


Foi realizada pela 1ª companhia de pára-quedistas, cujas tropas saltaram na zona da povoação com vista à tomada de posições que permitissem a ligação de Nambuangongo para Carmona e Negage via Quitexe, cortando as vias de reabastecimento dos bandoleiros vinda da serra de Mucaba pelo Songo e Zalala. Depois de reorganizada a defesa da zona, os pára-quedistas deram início à construção da pequena pista para aterragem dos aviões que procedessem à recolha do material de salto e ao fornecimento de equipamentos e víveres. Enquanto uns trabalhavam no corte de arbustos e remoção de obstáculos, outros faziam o reconhecimento da periferia da povoação (destruída pelos bandoleiros) até à chegada da companhia de caçadores que partiu de Nambuangongo em direcção a Quipedro onde ficaria instalada.


A aproximação descuidada do pessoal dessa companhia deu origem a um tiroteio com os pára-quedistas; pois, não foram prevenidos da chegada de estranhos às redondezas. Tudo acabou bem, porque alguns militares de ambos os lados perceberam que aquela intensidade de fogo só poderia ser da “nossa” tropa e começaram a cantar o hino nacional como forma de identificação.


             


- 25 de Agosto de 1961 – “Operação Canda”


Os elementos da 2ª companhia de pára-quedistas saltaram com pára-quedas e tomaram de assalto a povoação de Zenda, localizada nas faldas da serra da Canda. Durante os saltos, o pára-quedista Pimentel ficou preso à carlinga do avião, correndo perigo de morte. Com o esforço do largador, foi salvo; já sorte diferente teve o cabo Cunha, que morreu devido a problemas na abertura do pára-quedas.


Durante quatro dias de batidas na região, dois pelotões da companhia avançaram em direcção à confluência dos rios Lueca e Mbridge, desmantelando os acampamentos da UPA aí instalados. O outro grupo reocupou Bazacomo e fez a ligação com as tropas do batalhão de caçadores que vieram por Madimba até ao rio Mbridge, tentando cortar uma importante via de reabastecimento dos bandidos da UPA.


02 - A caminho serra Canda.jpg


2.3.saltos.jpg


04. O Pimentel em perigo....jpg


- Em 15 de Setembro de 1961“Operação Sacandica


Ao pelotão reforçado do Alferes Simão Nunes foi atribuída a missão de efectuar saltos de pára-quedas para reocupar a povoação localizada no extremo norte de Angola - Sacandica. A fronteira do ex-Congo Belga fica a escassos quilómetros, dando grandes possibilidades aos bandidos de se infiltrarem na região e progredir para Icoca e Quimbele, na direcção de Sanza Pombo. Com o sucesso desta operação, ficou assegurada a ligação entre as forças militares instaladas desde a fronteira de Noqui, Luvo, Buela, Maquela do Zombo e Béu. As povoações de Quibocolo, Damba e 31 de Janeiro ficaram mais protegidas. 


- Operação Sacandica - Pára-quedistas.jpg


        


1.Para-quedas.jpg


- Içar da bandeira em Sacandica....jpg



 


 - A 16 de Setembro de 1961: Pedra Verde


Depois de várias tentativas do Exército e Forças especiais, especialmente Caçadores, sofrendo mortos e feridos, é tomada a “Pedra Verde”, zona de íngremes subidas, morros escarpados e esconderijos nas grutas perigosas. É um local estratégico para dominar as estradas do Caxito para Quibaxe, pelo Piri. Foi mais um revés na tentativa da UPA em dominar os itinerários para o interior da região dos Dembos. 


  


- Outubro de 1961 – CONTRADIÇÕES


Por determinação do comando-geral das forças armadas, é proibido aos militares dizerem que há guerra em Angola. “Há apenas acções militares para manter a segurança pública.”


Na sua visita ao sul de Angola, passando por Sá da Bandeira, o general Venâncio Deslandes, governador-geral de Angola, no seu discurso disse: “Sofrem-se, aqui em Angola, as consequências de uma guerra que o Mundo quase inteiro nos faz, apesar da obra gigantesca que tem sido realizada pelos portugueses, aqui mesmo, nesta província, e da qual nos podemos orgulhar. Essa guerra obriga-nos a um grande esforço e a termos ilimitada fé para provarmos que o sistema português é o único honesto e capaz de fazer progredir os povos deste grande continente africano, onde fomos os primeiros a chegar.” 


             


  Poucas semanas após o regresso a Luanda, o governador-geral formalizou normas legislativas com vista a dar aos povos autóctones mais liberdade de posse e cultivo das terras. Este princípio vai de encontro às ideias expressas por influentes angolanos no sentido de resolver o problema da guerra com negociações políticas.  


  


- Novembro de 1961 - ABRIR CAMINHO… com os bravos condutores


Depois das máquinas derrubarem árvores e endireitar picadas, os homens do Exército andavam dias e semanas a limpar as margens do caminho que permitiam passar com maior segurança para reabastecimento das localidades e tropas aí estacionadas. Era um trabalho medonho daqueles abnegados operadores de máquinas.


Em todos os reabastecimentos sobressaem os tenazes condutores das viaturas que, à mercê das balas inimigas e emoldurados com as poeiras das secas picadas, lá seguem com os volantes na mão e as vidas dos combatentes que transportam confiantes. Para eles vai todo o meu apreço e gratidão.


 


TRIBUTO AOS VALENTES


Entre as forças militares que avançaram para as povoações desprotegidas, estão os pára-quedistas e os caçadores especiais organizados em pequenos grupos de combate. Entraram em acção com redobrado empenho para enfrentarem os terroristas que em sucessivos ataques iam dizimando as populações e destruindo o que restava das fazendas e roças do café. Esses homens obrigados a conviver com o terror, viram o sangue dos inocentes espalhado nas paredes dos escombros das habitações, deram o melhor do seu saber em prol da paz nas terras massacradas. Isolados e entregues à sua sorte, mostraram ao mundo a força da nossa razão para vencer os mais inesperados obstáculos.   


          


Como elementos de importância vital para o desempenho das missões atribuídas aos militares, estão os aviadores, pilotos e pessoal da manutenção e logística, tanto da Força Aéreo como os pilotos civis. Quer no transporte de pessoal e de reabastecimento para zonas inacessíveis por via terrestre, quer na evacuação de feridos e na distribuição de bens alimentares de primeira necessidade, as aeronaves e as suas tripulações têm desempenhado um trabalho exemplar de abnegação e entrega que merecem o nosso especial apreço.


 Para os combatentes que andaram no terreno e testemunharam os perigos envolventes nos percursos entre povoações das zonas de guerra, percebe-se as tremendas dificuldades que os camionistas tiveram de vencer para levarem apoio aos que ficaram abandonados por essas terras do Norte de Angola. Nos dias imediatamente a seguir ao 15 de Março, o desespero apoderou-se de todos os angolanos que tinham familiares ou amigos nos locais onde a sanha dos bandoleiros espalhou a morte e o terror. Com a escassez de meios militares e forças de segurança, foram esses valentes camionistas das estradas de Angola que organizaram as primeiras colunas e avançaram com os rudimentares meios de defesa em socorro dos portugueses que vagueavam nas matas e no que restava das povoações, tentando escapar à sanha assassina dos bandidos da UPA. Há muitos testemunhos a comprovar as façanhas terríveis e protagonizadas por gente anónima que ainda vamos tentar divulgar.


Aos camionistas juntaram-se outros portugueses habituados a viver o rigor das picadas, e com as armas que dispunham organizaram grupos de voluntários para defesa dos que ficaram nas povoações. Com base nesses grupos formaram-se os Corpos de Voluntários que prestaram um valioso apoio à progressão das tropas que foram chegando da metrópole. Conhecedores do terreno, a sua acção tem sido fundamental na colaboração com a tropa recém chegada a um ambiente completamente desconhecido, onde os perigos são muitos e passam pelas dificuldades de movimento nas estradas enlameadas por causa das intensas chuvas da época.


 


        


 Tal como aos soldados que enfrentaram o desconhecido mato de Angola e, além de darem combate aos bandoleiros, têm a coragem de entrar nas matas inóspitas onde o perigo espreita a todo o momento, também prestamos a nossa homenagem ao Corpo de Voluntários e aos camionistas que contribuíram para conter a avalanche do terrorismo e têm mantido a prontidão para socorrer as populações desprotegidas e para colaborar com a tropa cujos efectivos entraram em acção sem tempo para adaptações ao clima e às difíceis situações inerentes à guerra de guerrilha. No conjunto dos esforços de todos eles, ficam na nossa memória os mortos que nunca chegaram ao destino que o seu sonho iluminou.


                                                                                                    


                             Luanda, Maio de 1962


        Joaquim Coelho


in "O Despertar dos Combatentes"  - pedidos para:  jotasousa39@gmail.com  


 





 

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