Para que os HOMENS não esqueçam que há outros Natais...
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Aos companheiros das campanhas africanas
e aos que visitam este espaço de memórias
saúdo com sinceros votos de Boas Festas
e com a promessa de postar outras estórias.
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rebentamentos... o desastre...


RECADOS aos Cobardes que trairam a Pátria
Para que as memórias não esqueçam que houve uma guerra no ultramar, seguida duma descolonização vergonhosa para todos quantos se bateram com as armas e para aqueles que sempre fizeram daqueles territórios a sua terra-mãe, editei alguns "retalhos" de testemunhos emitidos nas televisões. Assim, vejam as imagens que estou a postar na Net e que não deixam saudades, porque podem ser dramáticas, a que bem poderia chamar-se: "A Saga dos retornados-escorraçados". Há muitas estórias por contar, escondidas no coração amargurado dos que deixaram parte da sua vida e da sua alma em terras africanas.
Joaquim Coelho
Vejam: http://ultramarlembrar.blogspot.com
CAMINHOS
Neste labirinto de absurdos equívocos, estes homens que bebem a poeira com gotas de chuva, que sabem enfrentar o destino, com outra dimensão de carácter, que as regras arcaicas mastigam até os enlouquecer, não podem deixar-se imolar por causa do desespero dos patriotas desnaturados.
Ainda está vivo o génio ousado dos Portugueses paladinos das alturas, como a ânsia de atravessar o espaço e cair levemente nos braços da pátria desta raça lusitana. Sente-se o ambiente pesado...
Joaquim Coelho
- in "O Despertar dos Combatentes" - pedidos para: jotasousa39@gmail.com
A Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra, abriu ontem uma Exposição Fotográfica sobre o tema: "Soldados em África - Memórias".
A Exposição está aberta ao público até às 21Horas de 20 de Junho, na Torre de Menagem de Braga, junto às Arcadas. Teve o apoio do pelouro da Cultura da CM de Braga.
Como tenho feito com outras entidades, forneci grande parte das imagens expostas, de modo a divulgar o que foram as vivências na Guerra Colonial e as dificuldades dos soldados ao serviço da Pátria cujos governantes tão mal os tratam. Aos convidados foram oferecidos três POEMAS alusivos ao evento, entre eles:
DESEMBARCADOS
Mueda, Novembro de 1967
Ah, como é medonho
o sofrimento dos soldados
que mandaram para o planalto…
abandonados!
Privados do imaginado sonho
de darem o salto
como o fazem os desertores
em demanda do sustento;
ou como os exilados e traidores
à deriva do cata-vento.
-
Os navios deixam-nos na costa
(Porto Amélia ou Mocímboa da Praia)
já com saudades da catraia,
sempre crentes na aposta
da longínqua ideia difusa
do regresso à pátria-lusa.
Habilidosos no desenrasca,
não se afoitam em valentia
por saberem que qualquer dia
a caravana se atasca.
Vivem tempos de privações
cercados de arame farpado
em dias de intensas aflições
com o inimigo marafado.
Sentem o desconforto do abrigo
que os protege da morteirada
e da metralha do inimigo
que ataca pela alvorada.
-
Mas… o que mais entristece
é ver tombar um companheiro
cujo corpo arrefece
à sombra do embondeiro.
Sinto a violenta combustão
da alma que reclama
contra a ingrata humilhação
do sono em tosca cama
- uma sepultura sem caixões
feita pela lua cheia
onde os corpos esfacelados
nas violentas explosões
são recolhidos e embrulhados
na tenebrosa teia.
Vou deixar de pintar a realidade
e juntar-me aos que vivem às escuras
longe das noites inacabadas.
Sim… vou fechar os olhos e deixar
que a lua mostre a verdade
da vida dentro das barricadas
com a saudade a mastigar
o que resta da alma pura…
onde, sem dó nem piedade,
se espera a última amargura.
Joaquim Coelho
in "A Guerra Armadilhada" - jotasousa39@gmail.com
TORMENTOS
A noite de sono atormentado
em que dormimos acorrentados
à desgraça da pátria incapaz
de saber se ainda existimos…
abandonados nas terras recuadas
dos milheirais das machambas
onde mergulhámos
no lodo das incompetências
dos poderes soterrados em S. Bento
a sorte que nos cabe no momento
já se esboçava no desenlace
que a tragédia adiava
contra os combatentes cansados.
O pesadelo é uma eternidade
que a manhã acordou
quando a morte amarfanhou
mais um soldado valente
o socorro é a ínfima esperança
para nos livrar do tormento
que nos devora os sentidos
para reinventar-mos a vida
que nos foge com o tempo
no prelúdio da sepultura…
o silêncio dos olhares
deu alento à decisão
levar os feridos aos ombros
e caminhar pelo sertão
fugir do ambiente hostil
que nos mordia a vida
alancar até Napota
nossa terra prometida
acertar contas com os sacanas
que nos atiram p’ro inferno
por abandonarem nas savanas
os mortos no sono eterno.
Mutamba dos Macondes, Março de 1966
Joaquim Coelho
Por razões de actualização de alojamentos dos SITES:
http://www.webkreate.com/espacoetereo - Vivências na guerra ultramarinaa
https://guerracolonial61.wixsite.com/coelho - temass, vídeos, imagens e livros das guerras ultramarinas
alguns dos temas de «picadasdamicaia.blogs.sapo.pt»
migram para «micaias.blogs.sapo.pt» e verse-versa.
Podem consultar o "Arquivo" para ver outros temas.
Obrigado pela visita.
Joaquim Coelho
Canto as emoções da Primavera
que a natureza mistura nas searas...
os ventos espalham as sementes
enquanto os corpos ficam à espera
que o prazer descubra a vida
e absorva a seiva de mansinho
para alongar a esperança diluída
nos braços transbordantes de carinho.
Canto este hino a cada Primavera
que a mulher abriga no ventre alongado
e louvo a salutar atmosfera
onde esvoaçam as emoções
que o sonho traz entrelaçado
na promessa da perene vitalidade
fundida na expressão das paixões.
Joaquim Coelho
Guerra em Angola 2
Contornos da guerra em Angola 2
TOMADA DE NAMBUANGONGO
Desde 10 de Julho até 9 de Agosto, a operação “Viriato” envolveu várias centenas de militares e muitas dezenas de máquinas e viaturas para concretizar o mais importante objectivo da reocupação das povoações saqueadas pelos bandidos da UPA, dirigidos pelo terrorista Holden Roberto. Percorrendo um longo e difícil caminho, os homens do Batalhão de Caçadores 96, integrados nas Companhias de Caçadores 115, 116 e 117, chegaram a Nambuangongo onde se instalaram. Ainda nessa tarde, hastearam a bandeira portuguesa na igreja da povoação, cuja torre estava bastante danificada e apenas o alpendre que cobre a entrada se apresentava sem estragos. A povoação, situada num planalto, estava deserta.
Nos últimos 100 quilómetros, os combatentes deste batalhão tiveram vários reveses, desde Quibaxe, passando pela ponte, que foi reconstruída sobre o rio Danje. E, no profundo vale do rio Luica, onde mais uma ponte foi reparada, viram-se confrontados com as árvores tombadas sobre a picada; a força dos homens e das máquinas removeram mais esse obstáculo vindo da basta vegetação que marginava o caminho; até às portas de Mucondo e em Quincuzo sofreram fortes ataques dos bandoleiros. Logo após Muxaluando e até ao rio Onzo, continuaram os ataques cada vez mais raivosos por verem que nada fazia recuar o batalhão de caçadores 96. Os últimos cinco quilómetros foram os mais terríveis, pois o desgaste dos homens e das viaturas era evidente e as baixas começavam a causar danos psicológicos. Sete militares sacrificaram a própria vida, enquanto 21 ficaram com as marcas na carne.
- Em 12 de Agosto de 1961 – “Operação Quipedro”
Foi realizada pela 1ª companhia de pára-quedistas, cujas tropas saltaram na zona da povoação com vista à tomada de posições que permitissem a ligação de Nambuangongo para Carmona e Negage via Quitexe, cortando as vias de reabastecimento dos bandoleiros vinda da serra de Mucaba pelo Songo e Zalala. Depois de reorganizada a defesa da zona, os pára-quedistas deram início à construção da pequena pista para aterragem dos aviões que procedessem à recolha do material de salto e ao fornecimento de equipamentos e víveres. Enquanto uns trabalhavam no corte de arbustos e remoção de obstáculos, outros faziam o reconhecimento da periferia da povoação (destruída pelos bandoleiros) até à chegada da companhia de caçadores que partiu de Nambuangongo em direcção a Quipedro onde ficaria instalada.
A aproximação descuidada do pessoal dessa companhia deu origem a um tiroteio com os pára-quedistas; pois, não foram prevenidos da chegada de estranhos às redondezas. Tudo acabou bem, porque alguns militares de ambos os lados perceberam que aquela intensidade de fogo só poderia ser da “nossa” tropa e começaram a cantar o hino nacional como forma de identificação.
- 25 de Agosto de 1961 – “Operação Canda”
Os elementos da 2ª companhia de pára-quedistas saltaram com pára-quedas e tomaram de assalto a povoação de Zenda, localizada nas faldas da serra da Canda. Durante os saltos, o pára-quedista Pimentel ficou preso à carlinga do avião, correndo perigo de morte. Com o esforço do largador, foi salvo; já sorte diferente teve o cabo Cunha, que morreu devido a problemas na abertura do pára-quedas.
Durante quatro dias de batidas na região, dois pelotões da companhia avançaram em direcção à confluência dos rios Lueca e Mbridge, desmantelando os acampamentos da UPA aí instalados. O outro grupo reocupou Bazacomo e fez a ligação com as tropas do batalhão de caçadores que vieram por Madimba até ao rio Mbridge, tentando cortar uma importante via de reabastecimento dos bandidos da UPA.



- Em 15 de Setembro de 1961 – “Operação Sacandica”
Ao pelotão reforçado do Alferes Simão Nunes foi atribuída a missão de efectuar saltos de pára-quedas para reocupar a povoação localizada no extremo norte de Angola - Sacandica. A fronteira do ex-Congo Belga fica a escassos quilómetros, dando grandes possibilidades aos bandidos de se infiltrarem na região e progredir para Icoca e Quimbele, na direcção de Sanza Pombo. Com o sucesso desta operação, ficou assegurada a ligação entre as forças militares instaladas desde a fronteira de Noqui, Luvo, Buela, Maquela do Zombo e Béu. As povoações de Quibocolo, Damba e 31 de Janeiro ficaram mais protegidas.



- A 16 de Setembro de 1961: Pedra Verde
Depois de várias tentativas do Exército e Forças especiais, especialmente Caçadores, sofrendo mortos e feridos, é tomada a “Pedra Verde”, zona de íngremes subidas, morros escarpados e esconderijos nas grutas perigosas. É um local estratégico para dominar as estradas do Caxito para Quibaxe, pelo Piri. Foi mais um revés na tentativa da UPA em dominar os itinerários para o interior da região dos Dembos.
- Outubro de 1961 – CONTRADIÇÕES
Por determinação do comando-geral das forças armadas, é proibido aos militares dizerem que há guerra em Angola. “Há apenas acções militares para manter a segurança pública.”
Na sua visita ao sul de Angola, passando por Sá da Bandeira, o general Venâncio Deslandes, governador-geral de Angola, no seu discurso disse: “Sofrem-se, aqui em Angola, as consequências de uma guerra que o Mundo quase inteiro nos faz, apesar da obra gigantesca que tem sido realizada pelos portugueses, aqui mesmo, nesta província, e da qual nos podemos orgulhar. Essa guerra obriga-nos a um grande esforço e a termos ilimitada fé para provarmos que o sistema português é o único honesto e capaz de fazer progredir os povos deste grande continente africano, onde fomos os primeiros a chegar.”
Poucas semanas após o regresso a Luanda, o governador-geral formalizou normas legislativas com vista a dar aos povos autóctones mais liberdade de posse e cultivo das terras. Este princípio vai de encontro às ideias expressas por influentes angolanos no sentido de resolver o problema da guerra com negociações políticas.
- Novembro de 1961 - ABRIR CAMINHO… com os bravos condutores
Depois das máquinas derrubarem árvores e endireitar picadas, os homens do Exército andavam dias e semanas a limpar as margens do caminho que permitiam passar com maior segurança para reabastecimento das localidades e tropas aí estacionadas. Era um trabalho medonho daqueles abnegados operadores de máquinas.
Em todos os reabastecimentos sobressaem os tenazes condutores das viaturas que, à mercê das balas inimigas e emoldurados com as poeiras das secas picadas, lá seguem com os volantes na mão e as vidas dos combatentes que transportam confiantes. Para eles vai todo o meu apreço e gratidão.
TRIBUTO AOS VALENTES
Entre as forças militares que avançaram para as povoações desprotegidas, estão os pára-quedistas e os caçadores especiais organizados em pequenos grupos de combate. Entraram em acção com redobrado empenho para enfrentarem os terroristas que em sucessivos ataques iam dizimando as populações e destruindo o que restava das fazendas e roças do café. Esses homens obrigados a conviver com o terror, viram o sangue dos inocentes espalhado nas paredes dos escombros das habitações, deram o melhor do seu saber em prol da paz nas terras massacradas. Isolados e entregues à sua sorte, mostraram ao mundo a força da nossa razão para vencer os mais inesperados obstáculos.
Como elementos de importância vital para o desempenho das missões atribuídas aos militares, estão os aviadores, pilotos e pessoal da manutenção e logística, tanto da Força Aéreo como os pilotos civis. Quer no transporte de pessoal e de reabastecimento para zonas inacessíveis por via terrestre, quer na evacuação de feridos e na distribuição de bens alimentares de primeira necessidade, as aeronaves e as suas tripulações têm desempenhado um trabalho exemplar de abnegação e entrega que merecem o nosso especial apreço.
Para os combatentes que andaram no terreno e testemunharam os perigos envolventes nos percursos entre povoações das zonas de guerra, percebe-se as tremendas dificuldades que os camionistas tiveram de vencer para levarem apoio aos que ficaram abandonados por essas terras do Norte de Angola. Nos dias imediatamente a seguir ao 15 de Março, o desespero apoderou-se de todos os angolanos que tinham familiares ou amigos nos locais onde a sanha dos bandoleiros espalhou a morte e o terror. Com a escassez de meios militares e forças de segurança, foram esses valentes camionistas das estradas de Angola que organizaram as primeiras colunas e avançaram com os rudimentares meios de defesa em socorro dos portugueses que vagueavam nas matas e no que restava das povoações, tentando escapar à sanha assassina dos bandidos da UPA. Há muitos testemunhos a comprovar as façanhas terríveis e protagonizadas por gente anónima que ainda vamos tentar divulgar.
Aos camionistas juntaram-se outros portugueses habituados a viver o rigor das picadas, e com as armas que dispunham organizaram grupos de voluntários para defesa dos que ficaram nas povoações. Com base nesses grupos formaram-se os Corpos de Voluntários que prestaram um valioso apoio à progressão das tropas que foram chegando da metrópole. Conhecedores do terreno, a sua acção tem sido fundamental na colaboração com a tropa recém chegada a um ambiente completamente desconhecido, onde os perigos são muitos e passam pelas dificuldades de movimento nas estradas enlameadas por causa das intensas chuvas da época.
Tal como aos soldados que enfrentaram o desconhecido mato de Angola e, além de darem combate aos bandoleiros, têm a coragem de entrar nas matas inóspitas onde o perigo espreita a todo o momento, também prestamos a nossa homenagem ao Corpo de Voluntários e aos camionistas que contribuíram para conter a avalanche do terrorismo e têm mantido a prontidão para socorrer as populações desprotegidas e para colaborar com a tropa cujos efectivos entraram em acção sem tempo para adaptações ao clima e às difíceis situações inerentes à guerra de guerrilha. No conjunto dos esforços de todos eles, ficam na nossa memória os mortos que nunca chegaram ao destino que o seu sonho iluminou.
Luanda, Maio de 1962
Joaquim Coelho
in "O Despertar dos Combatentes" - pedidos para: jotasousa39@gmail.com
RAZÕES PARA MEDITAR
A História estuda cada facto da guerra e os fenómenos que lhe deram origem para atingir determinados fins. No entanto, a guerra traz sempre consequências dramáticas para os intervenientes directos, mesmo que ajude a desenvolver tecnologias aproveitáveis para o bem-estar da humanidade. À Sociologia interessa o método comparativo que estuda os grupos e tipos de fenómenos que originam a guerra dentro do seio social de cada indivíduo ou grupo social que intervém na guerra.
No caso Português, os avisos de que tudo estava a mudar no tocante aos povos colonizados não foram devidamente acatados pelos governantes nem pelos residentes nas colónias. Na Conferência de Bandung (Java-Indonésia), realizada em Abril de 1955, várias organizações internacionais e governos dos “países não alinhados”, tais como a Índia, Indonésia, Paquistão, Cuba, Egipto e outros influentes nas Nações declararam todo o apoio aos movimentos políticos criados nas colónias com vista à independência. Desde que a Índia ficou independente do Império Britânico, em Agosto de 1948, sempre pretendeu retirar à administração portuguesa todos os territórios encravados na costa do Malabar; as escaramuças agravaram-se quando a União Indiana invadiu Dadrá e Nagar-Aveli, em Junho de 1954, concluindo a invasão de Goa, Damão e Diu em vésperas do Natal de 1961. As consequências foram dramáticas para as tropas portuguesas, tendo ficado prisioneiros mais de três mil militares, os quais foram humilhados durante o cativeiro.
Foto de Francisco Faneca
Os governantes portugueses demonstraram o mais vil desprezo pelos militares cativos, não aceitando as condições objectivas propostas pelos indianos com vista ao repatriamento. Essa demora causou mais indignação e sofrimento a esses compatriotas que lutavam pela sobrevivência em cada novo dia. Enquanto isso, em Angola, as autoridades e alguma imprensa tentavam esconder os efeitos da machada dada no moribundo Império colonial português, protagonizada pela União Indiana, pondo em prática um insólito peditório público com vista à compra de um novo navio Afonso de Albuquerque para substituir o que foi afundado nas proximidades de Goa.
Foto de Francisco Faneca
Na década de 50, vários factores importantes, como a descoberta de minérios e petróleo de grande valor, levaram à formação de organizações políticas (movimentos) com vista à tomada do poder com a independência dos territórios portugueses. Essa era a bandeira de propaganda das Nações Unidas, e um grande número de colónias inglesas, holandesas, belgas e francesas negociaram a sua independência, tanto na África como na Ásia.
E o que fizeram as autoridades portuguesas?
Negligenciaram todos os indícios de mudança no contexto das nações; recusaram qualquer hipótese de negociação com representantes de movimentos independentistas; reprimiram todas as manifestações de protesto e fuzilaram parte dos seus cabecilhas. Enquanto isso, os “colonos” e os brancos nascidos nos territórios ultramarinos ajudavam na repressão, ministravam a justiça pelas próprias mãos e viviam na ilusão de que nada iria mudar. As consequências foram lamentáveis e prejudiciais para todo a sociedade portuguesa: com 14 anos de guerra, cerca de dez mil mortos, mais de trinta mil militares com graves deficiências físicas, algumas centenas de milhar de traumatizados por acções de combate e uma descolonização humilhante e indigna para quem sofreu na pele os reveses de tamanha hecatombe.
Luanda, Abril de 1962
Joaquim Coelho
in "O Despertar dos Combatentes" - pedidos para: jotasousa39@gmail.com
Contornos da guerra em Angola 1
FACTOS mais RELEVANTES
- Junho de 1960: O MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) envia uma declaração ao governo de Portugal com vista a negociações para resolver o problema colonial. Este documento levou à prisão de Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade.
- Novembro de 1960: Realizaram-se manifestações em Luanda, Lourenço Marques e, também, em Lisboa contra as decisões da ONU em declarar os territórios ultramarinos portugueses parcelas colonizadas; portanto, com direito à autodeterminação e independência.
- Janeiro de 1961: Assalto ao Santa Maria
Quando navegava com turistas no mar das Caraíbas, o paquete Santa Maria foi assaltado por um grupo de portugueses comandado pelo capitão Henrique Galvão. Curiosamente, este militar com serviços prestados na administração Angola, foi o mentor da criação de Nova Lisboa como capital do Império. Segundo as suas declarações, pretendia fazer um desembarque na costa angolana, mas acabou por navegar até ao Brasil onde pediu asilo político.
- Janeiro 1961: Revolta no Cassange
Na sequência de vários protestos por causa dos fracos salários pagos aos trabalhadores, estes entraram em greve por tempo indeterminado, tendo sido violentamente atacados por efectivos da polícia e do Exército. As aldeias da população da zona foram queimadas pelas bombas lançadas por aviões e os tumultos alastraram às fazendas de algodão da Cotonang, culminando com a chacina de milhares de trabalhadores e seus familiares. Os indiciados cabecilhas da rebelião foram presos e fuzilados na região de Gabela. As tropas metropolitanas em serviço em Angola (cerca de 1.700) participaram na repressão aos manifestantes, colaborando com a polícia e tropas locais (cerca de 5.000 efectivos indígenas).

- Fevereiro de 1961: Assalto às prisões de Luanda
Com os poucos efectivos de segurança ocupados na região do Cassange, a agitação foi-se agravando em Luanda onde os revoltosos assaltaram a Casa de Reclusão Militar, tendo morrido um cabo; pretendendo soltar os seus dirigentes presos nas cadeias, os bandidos assaltaram a esquadra de S. Paulo, da Polícia de Segurança Pública, e a repartições do estado. Na refrega, foram mortos sete agentes da polícia que caíram numa cilada dos revoltosos e, em consequência, os colonos armados caçaram e lincharam vários assaltantes. No dia do funeral dos polícias, os desacatos começaram nas ruas e acabaram nos muceques, onde os colonos mataram muitos indígenas.
- 15 de Março de 1961 : Início do terror
Tiveram início os massacres, organizados pela União das Populações de Angola (de Holden Roberto de origem Bakongo) e por militares congoleses, onde foram mortos e mutilados alguns milhares de colonos brancos e empregados negros, nas fazendas do café; especialmente nas zonas dos Dembos, Negage, Úcua, Nambuangongo, Zala, Quitexe, Nova Caipenda, Ambriz, Maquela do Zombo, Madimba, Luvaca, Buela e outras.

Em consequência, mobilizaram-se meios terrestres e aéreos para socorrer os residentes nas zonas ameaçadas, muitos dos quais conseguiram chegar a Luanda com os familiares. A escassez de efectivos militares obrigou a um desmesurado esforço para chegar aos pontos mais necessitados. As autoridades perderam o controlo das vias de comunicação para toda a zona Norte, onde foram destruídas pontes, obstruídas as estradas com derrube de árvores e abertura de valas. Alguns grupos de camionistas que tentaram avançar na direcção dos Dembos, tiveram que regressar por encontrarem as estradas cortadas; outros mais afoitos, caíram em emboscadas e foram mortos a tiros de canhangulo e à catanada. Na cidade organizaram-se milícias para tentar evitar que os bandidos da UPA se aproximassem com a sua sanha monstruosa. Já em Abril, depois das poucas tropas do alferes Meireles terem regressado ao Caxito, os ataques traiçoeiros e selvagens, utilizando catanas e granadas, aproximavam-se de Luanda, passando pelo Úcua, onde foram assassinados mais europeus e os empregados bailundos. Entretanto, a barragem das Mabutas, que fornecia energia a Luanda corria sérios riscos de ser atacada; civis e militares organizaram-se para a sua defesa.
Entretanto, os ataques chegam a outras povoações e fazendas: Bessa Monteiro, Carmona, Pango-Aluquem, Aldeia Viçosa, Lucunga, e Sanza Pombo continuando a perturbar as populações dessas terras.
Ainda em Março e nos meses seguintes de 1961, as tropas especiais (caçadores especiais e pára-quedistas) e alguns pelotões do Exército começaram a reconquistar povoações e fazendas, como Bembe, Maria Teresa, Quicabo, Damba, Madimba, Maquela do Zombo, 31 de Janeiro, Songo, Mucaba, Toto. Foi com alguma surpresa que vieram a constatar que o empenhamento das missões religiosas protestantes teve um grande peso na orgânica e no engajamento de indígenas para a rebelião, já que os diversos documentos encontrados nos locais das missões demonstravam a conivência entre os missionários oriundos de países como os Estados Unidos, Bélgica, Inglaterra e Países nórdicos, bastante próximos dos dirigentes da UPA, cuja sede é no Congo Belga. Numa operação na zona de Cuimba, encontrámos diversas fotografias com elementos da UPA acompanhados de representantes de organizações americanas; e, mais tarde, foram encontradas mais fotos em Madimba e Buela, onde estavam também dirigentes da UPA em festas religiosas e na sede de Leopoldeville.
- Em Abril de 1961: Embarque de tropas
Embarcou em Lisboa o 1º contingente de tropas para Angola no navio NIASSA, cujos militares desfilaram na avenida marginal de Luanda onde foram recebidos com manifestações de intensa alegria e confiança. Poucos dias antes, uma coluna militar foi emboscada na picada de Cólua, onde morreram nove militares, incluindo dois oficiais. Chegados a Luanda, seguiram para o interior Norte, o Batalhão de caçadores 88 foi reocupar a povoação de Damba e o batalhão de caçadores 92 instalou-se em Sanza Pombo; parte das companhias de caçadores continuaram a progredir na direcção da fronteira com o Congo ex-Belga, ocupando Santa Cruz e Maquela do Zombo.

- A 19 de Abril de 1961: Três pelotões de pára-quedistas embarcaram no avião da TAP com destino a Angola, para reforçar o contingente de grupos e equipas com cães de guerra que andavam pelos matos a ajudar na defesa das povoações. Outro grupo de pára-quedistas, que estava destacado em Lourenço Marques, deslocou-se para Angola. Com mais este grupo, outras povoações como o Bungo, Songo, Sanza Pombo, Quitexe melhoraram as condições de defesa contra os ataques dos bandidos da UPA.
- Em 14 de Maio de 1961: Desembarque de tropas
Chegou a Luanda um numeroso contingente militar, composto de unidades de Caçadores, Engenharia e Sapadores. Parte desses militares instalaram-se no quartel do Grafanil, onde permaneceram durante a organização e planeamento das suas primeiras missões. Ao Batalhão de Caçadores 96, comandado pelo Tenente-coronel Maçanita, incluindo um grupo de engenharia comandado pelo Alferes Jardim Gonçalves, coube fazer o reconhecimento e segurança das picadas até à ponte do rio Dange. Sofreram aí os primeiros ataques dos guerrilheiros da UPA, aos quais causaram pesadas baixas. Foi precisamente nesse itinerário que se deram as mais selváticas matanças de fazendeiros portugueses. E os bandidos do Holden Roberto atacavam em grandes grupos munidos de canhangulos e catanas. Para lhes dar o dom da ressurreição, os feiticeiros forneciam mixórdias e drogas que os tornavam imunes às balas dos portugueses. Morriam aos magotes, ficando os corpos espalhados ao longo das povoações como em Cacola, causando um cheiro nauseabundo.
- Em Junho de 1961 – Acções das marinha
A partir da costa norte, o batalhão de caçadores 156 instala-se em S. Salvador do Congo e Cuimba, enquanto forças da marinha desembarcam em Ambrizete e avançam na direcção de Tomboco e Quinzau, que ocupam.
- Em 10 de Julho de 1961: Operação Viriato
O Ten-Coronel Armando Maçanita, comandante do Batalhão de Caçadores 96, dá início à “operação Viriato”, destinada a abrir caminho até Nambuangongo e lá instalar um Batalhão do Exército, com máquinas de engenharia, artilharia, atiradores, telegrafistas e enfermeiros. Seguiram o itinerário de Caxito, Quibaxe, Santa Eulália, Mucondo, Muxaluando e Nambuangongo, onde chegaram na tarde do dia 9 de Agosto; tiveram que reconstruir diversas pontes, incluindo a do rio Dange; durante o percurso, foram atacados pelos bandoleiros da UPA que causaram mortos e feridos.
Com o mesmo objectivo, o Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo Tec-coronel Oliveira Rodrigues, seguiu o itinerário por Caxito, ponte do rio Lifune para Quicabo, onde foram severamente atacados pelas hordas inimigas e interromperam a marcha por dificuldades em atravessar a ponte que estava destruída. Sofreram 17 mortos e 46 e feridos, ficando impossibilitados de chegar ao objectivo.
Por outro itinerário mais longo, foi o Esquadrão de Cavalaria 149, comandado pelo Capitão Rui Abrantes, passando por Ambriz, Bela Vista e Zala, chegando a Nambuangongo um dia após o BCaç96, tendo sofrido apenas feridos nos ataques de que foi alvo.
Em todos estes itinerários, as dificuldades eram acrescidas com as pontes destruídas e as picadas obstruídas com árvores de grande porte e valas profundas. As máquinas da engenharia e os sapadores foram fundamentais para que o sucesso destas missões de reocupação.
Nambuangongo era um objectivo determinante para desalojar os bandidos da UPA, que ali tinham instalado o seu quartel-general, e para dar um sinal inequívoco de que as tropas portuguesas jamais dariam tréguas aos terroristas que agiram da forma mais selvagem contra os seus patrões e companheiros de trabalho nas fazendas e roças da região dos Dembos.
Para concretizar uma missão de tamanha envergadura, cada contingente militar seguiu um itinerário diferente. Do ponto de vista da estratégia militar, seria essa a forma de enfrentar os diversos obstáculos que se previam ao longo das “picadas”. Cada unidade militar muniu-se de viaturas e equipamentos de corte e remoção de obstáculos, tendo por base grupos de engenharia e sapadores. E tiveram sortes diferentes ao longo da jornada de cerca de quatro semanas de duros combates e dificuldades tremendas para abrir caminho. Fazendo dos reveses vitórias, a determinação daqueles militares, que poucas tinham viajado amontoados no navio e desembarcado em Luanda, foi fundamental para o êxito da operação “Viriato”. Só o Batalhão de Caçadores 96 e o Esquadrão de Cavalaria 149, conseguiram chegar a Nambuangongo, indo o primeiro por Quibaxe e o segundo por Ambriz e Zala. Enquanto isso, o Batalhão de Caçadores 114 debatia-se com grandes dificuldades para reconstruir a ponte sobre o rio Lifune, antes de Quicabo, sofrendo mortíferos ataques do inimigo que, apesar das pesadas baixas, nunca deixou de flagelar perigosamente os valentes combatentes daquele Batalhão.
Em Luanda, os estrategas militares começaram a ficar preocupados com a lenta progressão das unidades que enfrentavam inesperados obstáculos para chegar ao objectivo. O comando da Força Aérea tentou por em prática os seus planos de reocupação de Nambuangongo e convocou o comandante dos pára-quedistas com vista a fazer um lançamento por via aérea. Quando os chefes do estado-maior do Exército perceberam a manobra, deram o alerta para que mais ninguém interviesse nessa operação senão as unidades que já estavam no terreno. Apesar de progredirem com tremendas dificuldades, era ponto de honra que esse feito – reconquistar Nambuangongo – estava entregue ao Exército. E, quando as notícias vindas da frente (da ponte do rio Lifune e do rio Onzo) onde os Batalhões de Caçadores 96 e 114 sofriam as mais severas baixas, a Força Aérea fez a última tentativa de tomar Nambuangongo, à revelia dos pareceres do estado-maior do Exército, dando ordem de embarque a um grupo de pára-quedistas pronto para realizar o assalto ao quartel-general da UPA. Esse episódio ficou gravado na cabeça dos intervenientes, porque a voz do Tenente-coronel Maçanita fez-se ouvir com ameaças de mandar atirar contra os pára-quedistas que passassem ao alcance das armas dos seus homens. É um facto que muito boa gente quis limpar da história da guerra em Angola.
Continua em:
"Contornos da guerra em Angola 2"
Joaquim Coelho
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