sábado, 11 de abril de 2026

Resquícios das Guerras Ultramarinas

O Despertar dos Combatentes – em Tempo de guerra

    Nestes tempos sombrios da actualidade portuguesa e perturbações na sociedade mundial, é nosso dever realçar os feitos extraordinários nas descobertas de novos mundos e relacionamento amistoso dos nossos antepassados com outros povos; bem como dos seus engenhosos processos inovadores no desenvolvimento de novas técnicas de navegação e produção de alimentos para longas distâncias. Temos aqui um manancial de motivos para nos reanimar a esperança de lutarmos com convicção para melhorarmos o rumo da nossa vida colectiva, no sentido de melhores condições de vida  e de progresso harmonioso, dentro duma nação com história e valores de dimensão mundial.

   Os Combatentes portugueses, nas guerras ultramarinas, foram os continuadores das memoráveis descobertas e souberam partilhar muito das suas vivências com as populações das terras para onde foram destacados. Mas a guerra é sempre incómoda e destrutiva; razão por que é natural que nenhum ser humano deseje a guerra.

    As lembranças da guerra fazem parte de nós… são o espólio que não conseguimos entregar no quartel aquando da desmobilização; fazem parte do nosso espólio de combatentes participantes numa guerra estranha e mal compreendida! Na embriagues do destino, fomos atirados para a guerra e confrontados com situações de espantar! Uns mais que outros, todos sentiram a mordedura da guerra nas suas vidas, tanto nos acampamentos e destacamentos isolados e espalhados entre as savanas e matas, como nos aquartelamentos das vilas ou aldeamentos mais protegidos.

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   Quantas vezes, as deslocações se tornavam num inferno, tal a intensidade de fogo inimigo ou a potência das minas e dos fornilhos enterrados nas picadas. As morteiradas sobre os aquartelamentos eram um fadário angustiante, com as vidas pendentes enquanto não cessassem os vómitos das bocas-de-fogo e o zumbido da metralha nos ouvidos. Quando as camaratas eram atingidas e as camas desfeitas, os destroços nada valiam; tínhamos que fazer tudo de novo, reconstruir os alojamentos precários. As memórias da guerra são arrepiantes para muitos dos intervenientes directos e deixaram marcas inapagáveis.

   Os danos da guerra são dolorosos e deixam feridas difíceis de curar. Além da destruição dos bens, perdem-se amizades e as relações entre seres humanos que valorizam a vida e a sua essência. É contra todas essas perdas que devemos reagir dando valor à riqueza que nos resta - fortes laços de amizade e camaradagem, porque, entre os intervenientes nas guerras, esses valores foram a trave-mestra a segurar a frágil condição humana de muitos combatentes, nos primeiros tempos de missão. Alguns perderam a bússola das suas vidas, numa agitação anormal da consciência e das emoções; não fora a mística do companheirismo e a camaradagem cimentada nas mais difíceis condições de sobrevivência e a desgraça dos traumatizados teria atingido uma dimensão muito mais grave e penosa para a sociedade portuguesa.

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    Os jovens que um dia partiram das suas terras, arrancados do seio das suas famílias e dos seus empregos, foram desembarcados nos confins das terras de África, onde sobreviveram às angústias e aos perigos da guerra, também saberão responder adequadamente aos governantes que os desprezam como gente reles da sociedade. Saberão honrar as memórias de todos os que morreram ao serviço da Pátria, porque são os guardiães dos nobres valores da Nação civilizada e porque juraram defender a bandeira de Portugal contra os traidores que a amarrotam e os cobardes que a envergonham; a força da ética e da moral militares são válidas em todos os escalões da sociedade, tanto na formação dos cidadãos como na aplicação da justiça. Pena é que muitos façam por ignorar tal factor de estabilidade social na educação e no equilíbrio emocional.

   Ninguém se esqueça que os combatentes foram empurrados para a guerra em circunstâncias adversas aos seus interesses familiares, profissionais e formação escolar, com fundamento na preservação do território português, tão propagado pela comunicação social e nos discursos oficiais.

   As características do povo português têm pouco de guerreiros, mas muito de inocência ou moralismo ancestral, porque sempre fomos um povo mal compreendido pelos governantes com o complexo de superioridade justificado no compromisso mais absurdo da condição humana. A pregação dos superiores hierárquicos nunca foi capaz de justificar as razões da guerra nas terras ultramarinas, gratificante para alguns que colheram bons proventos, mas desgastante e dolorosa para a generalidade dos combatentes.

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    Por razões de conveniência partidária, política e interesses militares, o abandono das terras ultramarinas criou graves prejuízos a muitos milhares de cidadãos que lá viviam, sendo a culpa da descolonização atirada para cima dos combatentes desmobilizados e abandonados à sua sorte. Por isso, aqueles que conseguiram integrar-se na sociedade, trabalhar e participar no desenvolvimento do país, tiveram o mérito de galgar as dificuldades e viver; já o mesmo não aconteceu com os que nunca conseguiram limpar da sua mente os traumas dos momentos difíceis, os quais continuam a carregar dentro de si as imagens terríveis dos mortos e esfacelados caídos a seu lado, muitas vezes por falta de meios de socorro. Todos merecem respeito e reconhecimento, mas estes merecem, também, tratamentos de recuperação do stress de guerra, solidariedade pública, apoio social e financeiro.

        Amares, 25 de Abril de 2016

Joaquim Coelho – Combatente e jornalista

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segunda-feira, 24 de março de 2025

1961 - Reconquista do Norte de Angola

Em ANGOLA… Repórter de Guerra

    A fotografia sempre me fascinou. Desde novo, acompanhava os turistas nas visitas à cidade e Caves do Vinho do Porto em Gaia, sempre com a máquina de fole AGFA; fiz cursos de Jornalismo no “SÉCULO” e repórter na Escola do Álvaro Torrão, quando estava na Força Aérea, Base Aérea 1, em 1960. O princípio de uma longa caminhada em Reportagens pelo mundo: Angola, Moçambique, Vietname, Kosovo, Bósnia, Líbano, Caxemira, Paquistão. Começamos em Angola...

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   Antes de entrar na preparação para o curso de Paraquedista em Maio de 1961, aproveitei 15 dias de férias para acompanhar a equipa de Jornalistas, chefiada pelo Artur Agostinho da RTP, com vista a fazer a cobertura do início da guerra em Angola. Fui aceite para fazer reportagem para o Século e lá seguimos para Luanda. No decorrer das reuniões e reportagens conheci o Joaquim Cabral (repórter do CITA – Centro de Informação e Turismo), o José Dionísio, o João Azevedo, o Horácio Caio, o jovem Fernando Farinha e dois directores de jornais.

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   O ambiente em Luanda era tenso e todos os dias havia mortos baleados nas ruas da baixa, tendo as viaturas do Exército o trabalho de fazer a recolha dos corpos, logo pela manhã. Num ambiente de grande inquietação e incertezas sobre o que se passava na região das fazendas do café, chegavam ao Aeroporto os aviões civis que conseguiam evacuar algumas famílias foragidas da região dos Dembos, parte delas sem saberem do paradeiro dos outros fazendeiros e trabalhadores do café que tinham fugido para o meio das matas, tentando escapar à sanha terrorista dos bandoleiros da UPA.

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   Como estava em curso a saída de uma coluna militar para a região dos ataques terroristas, fui integrado na coluna de viaturas com os Caçadores Especiais, percorrendo o itinerário desde o Cacuaco até Quibaxe, onde encontramos picadas obstruídas com grandes árvores, perigosos buracos encobertos com ramos e valas fundas. Em cada curva ou zona de arribas havia o perigo das emboscadas, de onde saíam dezenas de terroristas de catana em punho e alguns canhangulos, ao que as tropas respondiam com as armas que tinham, dizimando muitos dos que enfrentavam a tropa de peito aberto. Sendo os Caçadores Especiais a tropa mais em prontidão e com experiência das lutas durante a revolta dos trabalhadores do algodão para a Cotonang, mostraram grande aptidão para enfrentar os terroristas. Os dias de confrontos deixavam um cenário desolador e de morte, onde as hienas e mabecos davam sinais de fartos manjares durante a noite.

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    Com muito custo e perigos consequentes, chegamos a Quibaxe, após uma semana de sairmos de Luanda. Aproveitei a boleia do avião civil que levou provisões para o pessoal da coluna e voltei a Luanda, para regressar à Metrópole, enquanto a coluna dos Caçadores Especiais prosseguiu mais para o norte.

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   Antes de partir para Portugal, estive alojado com os Paraquedistas na Fortaleza, local de aquartelamento das poucas dezenas que estavam em Angola desde 1960, chefiados pelo Tenente Manuel Claudino Martins Veríssimo, com uma boa secção de cães de guerra. Assim, fiquei ao corrente da organização de equipas de intervenção que iam embarcando para as zonas mais problemáticas, como Damba, 31 de Janeiro, Bembe, Negage…

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   Durante os últimos dias de Março, antes da Páscoa, participei no encontro de jornalistas e escritores angolanos e cabo-verdianos, na Casa do Porto, onde tive a sorte de encontrar gente culta e afectuosa; conversei e convivi com a Maria Ondina, professora franzina, aparentemente, reservada e bastante culta; enquanto esperamos para reunir com jornalistas numa casa virada para a Baía de Luanda; estivemos no Beileizão a saborear uns gelados… aí, o jornalista Ernesto Lara Filho, da revista Notícia, apresentou-me a irmã, poeta e médica Alda Lara, que havia chegado de Benguela com a Maria Ondina e logo entabulamos conversa sobre novas de Lisboa, e qual o meu papel em Angola! Trocamos ideias sobre os problemas da guerra, onde lhe disse estar em preparação nos para-quedistas e que, mais cedo ou mais tarde, iria fazer companhia aos camaradas que estavam em Angola desde 1960.

Joaquim Coelho

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Com os Caçadores Especiais e 6ªCC:

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...A.Todos para o chão... antes que seja tarde!.j

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sábado, 15 de março de 2025

Terror em Angola -15 de Março de 1961

Guerra em Angola - Foi há 64 anos

   No contexto de mais um aniversário da guerra do ultramar, deixamos alguns apontamentos importantes para melhor entendermos os contornos de uma guerra que transtornou a vida de milhões de portugueses, provocou centenas de milhares de traumatizados, deixou dezenas de estropiados, cerca de dez mil mortos e milhões de famílias numa onda de incertezas e vidas suspensas. Noventa por cento da população jovem masculina foi mobilizada para a Guerra do Ultramar.

   Apesar das perturbações na vida da população portuguesa do continente e das colónias, os gastos no esforço de guerra provocaram um grande desenvolvimento económico e social, com a modernização das infraestruturas e novas indústrias.

   Perante o mundo, Portugal ficou bem posicionado em termos de organização e inovação na economia de guerra, na indústria do armamento, na logística e administração da máquina de guerra em três zonas distintas e afastadas do continente. Sendo as tropas portuguesas amplamente admiradas pela sua eficácia, resistência e poder de adaptação às diversas circunstâncias do terreno e do clima.  

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- Revolta no Cassange

   As mais graves escaramuças entre tropa portuguesa e os agricultores de algodão da Baixa do Cassange começaram na sequência de vários protestos por causa dos fracos salários pagos aos trabalhadores; estes entraram em greve por tempo indeterminado, tendo sido violentamente atacados por efectivos da polícia e do Exército. As aldeias da população da zona foram queimadas pelas bombas lançadas por aviões e os tumultos alastraram às fazendas de algodão da companhia algodoeira Cotonang (empresa alemã e belga), culminando com a chacina de milhares de trabalhadores e seus familiares. Os indiciados cabecilhas da rebelião foram presos e fuzilados na região de Gabela. As tropas metropolitanas em serviço em Angola (cerca de 1.700) participaram na repressão aos manifestantes, colaborando com a polícia e tropas locais (cerca de 5.000 efectivos indígenas).  

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- Em Fevereiro de 1961: Assalto às prisões de Luanda

   Com os poucos efectivos de segurança ocupados na região do Cassange, a agitação foi-se agravando em Luanda onde os revoltosos assaltaram a Casa de Reclusão Militar, tendo morrido um cabo; pretendendo soltar os seus dirigentes presos nas cadeias, os bandidos assaltaram a esquadra de S. Paulo, da Polícia de Segurança Pública, e a repartições do estado. Na refrega, foram mortos sete agentes da polícia que caíram numa cilada dos revoltosos e, em consequência, os colonos armados caçaram e lincharam vários assaltantes. No dia do funeral dos polícias, os desacatos começaram nas ruas e acabaram nos muceques, onde os colonos mataram muitos indígenas.

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- Em 15 de Março de 1961 : Início do terror

   Tiveram início os massacres, organizados pela União das Populações de Angola (UPA de Holden Roberto de origem Bakongo) e por militares congoleses, onde foram mortos e mutilados alguns milhares de colonos brancos e empregados negros, nas fazendas do café; especialmente nas zonas dos Dembos, Negage, Úcua, Nambuangongo, Zala, Quitexe, Nova Caipenda, Ambriz, Maquela do Zombo, Madimba, Luvaca, Buela e outras. 

   Em consequência, mobilizaram-se meios terrestres e aéreos para socorrer os residentes nas zonas ameaçadas, muitos dos quais conseguiram chegar a Luanda com os familiares. A escassez de efectivos militares obrigou a um desmesurado esforço para chegar aos pontos mais necessitados. As autoridades perderam o controlo das vias de comunicação para toda a zona Norte, onde foram destruídas pontes, obstruídas as estradas com derrube de árvores e abertura de valas. Alguns grupos de camionistas que tentaram avançar na direcção dos Dembos, tiveram que regressar por encontrarem as estradas cortadas; outros mais afoitos, caíram em emboscadas e foram mortos a tiros de canhangulo e à catanada.

   Em 22 de Março, integrei uma equipa de jornalistas e repórteres organizada pela RTP para acompanhar as primeiras colunas de Caçadores Especiais da 6ª CC, que conseguiu chegar até Quibaxe. Daí, tomei um avião civil de reabastecimento que me levou a Luanda.

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   Na cidade organizaram-se milícias para tentar evitar que os bandidos da UPA se aproximassem com a sua sanha monstruosa. Já em Abril, os ataques traiçoeiros e selvagens, utilizando catanas e granadas, aproximavam-se de Luanda, passando pelo Úcua, onde foram assassinados mais europeus e os empregados bailundos. Defesa da barragem das Mabutas, que fornecia energia a Luanda corria sérios riscos de ser atacada; civis e militares organizaram-se para a sua defesa.

  Ainda em Março e nos meses seguintes de 1961, as tropas especiais (caçadores especiais e pára-quedistas) e alguns pelotões do Exército começaram a reconquistar povoações e fazendas, como Bembe, Maria Teresa, Quicabo, Damba, Madimba, Maquela do Zombo, 31 de Janeiro, Songo, Mucaba, Toto. Foi com alguma surpresa que vieram a constatar que o empenhamento das missões religiosas protestantes teve um grande peso na orgânica e no engajamento de indígenas para a rebelião, já que os diversos documentos encontrados nos locais das missões demonstravam a conivência entre os missionários oriundos de países como os Estados Unidos, Bélgica, Inglaterra e Países nórdicos, bastante próximos dos dirigentes da UPA, cuja sede é no Congo Belga. Numa operação na zona de Cuimba, encontrámos diversas fotografias com elementos da UPA acompanhados de representantes de organizações americanas; e, mais tarde, foram encontradas mais fotos em Madimba e Buela, onde estavam também dirigentes da UPA em festas religiosas e na sede de Leopoldeville.  

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– Envolvimento do Governo americano

   Pois, Kennedy deu luz verde para a guerra em Angola, apoiando o dirigente tribal Holden Roberto, bacongo da tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital era Mbanza Congo, rebaptizada São Salvador do Congo pelos portugueses, que ali chegaram em 1482.

   A organização desenvolveu a actividade através de Manuel Sidney Barros Nekaka, enfermeiro na Missão Congregacional Americana do Dondi, no Huambo que, em 1942 se fixou em Leopoldville e, com apoio do pastor James Russel, organizou a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), surgida em 1954 e dois anos depois convertida na União dos Povos de Angola (UPA). A trajectória política do clã Nekaka foi sempre acompanhada pelos americanos.

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   Holden Roberto foi criado em Leopoldville, onde foi baptizado pela Igreja Baptista e, em homenagem ao missionário americano que o apadrinhou, adoptou o nome de Holden Carson Graham. Usou ainda outros nomes como Joy Gilmore em cartas que enviou a Salazar, o que, segundo o anedotário angolano, levou o ditador a comentar: “Eles usam vários nomes para parecerem muitos”. Durante oito anos, Holden foi funcionário na administração colonial belga, mais interessado em futebol do que em política, mas, não podendo ser Matateu, aderiu ao movimento do tio em 1956. A sede da UPA no porto de Matadi, Congo-Brazaville, era frequentada por marinheiros negros americanos que introduziam material de propaganda para Angola e um desses marítimos, George Barnett, fundou no Lobito a primeira célula do movimento em Angola.

   Mais tarde, as missões protestantes americanas em Angola tornaram-se também células clandestinas da UPA e, graças aos missionários, Holden estabeleceu ligações com o American Committee on Africa, presidido por Eleanor Roosevelt, viúva do presidente Franklin Roosevelt e activistas dos direitos cívicos como o bispo Homer Jack, da Igreja Unida América e Canadá, que o apresentou ao então senador John Kennedy em Setembro de 1959. “Estive duas horas a explicar a Kennedy o sentido da nossa luta em Angola. Ele disse-me que os Estados Unidos tinham uma tradição anticolonial e não podiam continuar a apoiar o regime de escravatura em Angola. Concordámos que era preciso fazer alguma coisa para evitar que os comunistas tomassem conta do movimento de libertação de Angola”, escreveu mais tarde Holden.

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   As chatices de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o capitão Henrique Galvão se apoderou do paquete Santa Maria e ameaçou rumar a Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo $6.000 anuais, o que foi posteriormente aumentado para $10.000 e depois para $25.000/ano.

   Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando “ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal”.

   A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola, o Governo português menosprezou a informação.

   Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos pegaram nas catanas e massacraram mais de 1.000 brancos e 8.000 trabalhadores no Norte de Angola. Os brancos improvisaram milícias, que responderam também com violências  e começou uma guerra que se prolongou por 13 anos, com responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.

   Em Luanda, os brancos atiraram o carro do cônsul americano à baía, enquanto em Lisboa, em 21 de Março, houve manifestações frente à embaixada. Apesar dos protestos, o secretário de Estado Dean Rusk visitou Lisboa em 27 de Março com uma proposta de Kennedy, a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.

   O plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretário de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: “Portugal não está à venda”. Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se.

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Recolha e adaptação de Joaquim Coelho, Repórter de guerra

VER:   https://picadas2.blogs.sapo.pt

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Quem Comanda... sou eu. - Desobediência!

A Calma perante o Perigo foi a Salvação

    A serenidade e a calma são as melhores armas para nos protegerem em circunstâncias complicadas da vida. Porque as decisões ponderadas são as mais assertivas.

    O episódio ocorrido numa emboscada dos guerrilheiros “frelimos” a um grupo de combate composto por cerca de 40 Paraquedistas, após o assalto e neutralização de um acampamento inimigo situado a sul de Nangade-Cabo Delgado, demonstra as complicadas decisões de comando em situações extremamente perigosas. Conforme descrito no “documentário” da Camões TV-Canadá, que pode ser visto clicando na imagem abaixo, a experiência do sargento Coelho, em situações de guerra, em Angola, foi fundamental para evitar graves danos nas nossas tropas.

Lamentavelmente, a Camões TV - Canadá desativou os links para os episódios sobre a Guerra Colonial!

Parte do tema está nos textos do Blog.......Camões TV-Ep.25-Moçambique.jpg

    “A desobediência às ordens do comandante, frente ao inimigo, pode ser punida com a morte do militar desobediente, por fuzilamento” – código de justiça militar antigo. Pois, foi esta situação que esteve iminente, caso o desfecho não fosse abortado. Mas a retaliação veio mais tarde.

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         DESOBEDIÊNCIA ACERTADA

    Era mais uma missão da terceira semana em acções de reconhecimento e limpeza na zona operacional de Napota, uns quilómetros a Sul de Mutamba dos Macondes, onde foram recolhidos cerca de trezentos e vinte habitantes e aprisionados sete guerrilheiros. Juntamente com meia dúzia de armas, toda aquela gente foi entregue aos cuidados da companhia de Engenharia de Nangade.

Parecia uma operação rotineira, por entre os trilhos usados pelos guerrilheiros da Frelimo para reabastecerem as suas bases do vale de Miteda até Nangololo. Por coincidência ou por perícia, até agora, nunca houve recontros armados nem sinais de emboscadas, apesar de termos avistado duas patrulhas na recolha de água do mesmo poço, único num raio de dez quilómetros, onde também nos servimos da preciosa água.

    Desta vez, assaltámos as instalações de uma antiga serração de madeiras transformada em base de apoio logístico e administrativo aos homens da Frelimo. Bem escondida dentro da mata, foi detectada por acaso. Depois de tomados os três trilhos de acesso e uma picada obstruída com várias árvores derrubadas, as três secções do primeiro pelotão, reforçado com mais uma secção, tomaram o controlo das entradas e saídas, evitando a fuga dos frelimos; o pessoal do terceiro pelotão tomou de assalto todas as instalações e palhotas e aprisionaram um secretário e três guerrilheiros, bem como nove habitantes do apoio logístico – mulheres e crianças. Não foi disparado um único tiro, porque todos eles levantaram os braços a pedir clemência! Mas, logo vimos vários guerrilheiros armados que se escapuliam por detrás das palhotas para a mata. Abrimos fogo na sua direcção… Estavam muito assustados pela surpresa do assalto. Foram recolhidas duas armas automáticas e alguns utensílios de trabalho nas machambas. Como de costume, as mulheres e crianças tinham que nos acompanhar.

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    Sem perder tempo, fez-se um interrogatório preliminar aos quatro prisioneiros mais importantes, mas estes mostraram pouca vontade de colaborar, apesar da ameaça do cinturão do cabo Martins. Só o secretário, que não era maconde, deu algumas informações que permitiram encontrar mais dois pequenos redutos de apoio logístico à guerrilha.

Por acordo entre os comandantes de pelotão e secção, os mais de quarenta combatentes dividiram-se em dois grupos de combate autónomos, ficando um deles no terreno para procurar e desmantelar os ditos acampamentos da Frelimo, enquanto o outro grupo conduzia os prisioneiros e o respectivo material para o nosso acampamento em Napota.

    Aproximava-se o meio-dia quando partimos de regresso com as definidas missões. O meu grupo, avançou para um dos objectivos indicados pelo prisioneiro, localizado a norte da ribeira de Munga, cortando o caminho por entre brenhas e capim, de modo a evitar possíveis emboscadas nos trilhos. Na proximidade das sanzalas foi feito o ponto da situação e logo passámos ao assalto…  ficámos surpreendidos com o resultado da nossa acção: mais três guerrilheiros, seis mulheres e cinco homens idosos foram aprisionados. Os guerrilheiros não tinham as armas junto deles, pois estavam a reabastecer-se de alimentos, e não ofereceram resistência. Até já duvidávamos de tanta facilidade numa zona considerada perigosa para as nossas tropas.

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    O sol, que atestava forte em cima das nossas cabeças, e a sede, sempre difícil de controlar, retiravam alguma lucidez ao comportamento do pessoal. Com a ansiedade a aconselhar o percurso mais arborizado e mais curto em direcção ao nosso acampamento provisório, seguimos um trilho que nos levou até ao vale com bastante vegetação. Alguns elementos da equipa do cabo Santos, que seguiam na frente da coluna, perceberam que os trilhos estavam muito desgastados pelo movimento de pessoas. O sargento Coelho preveniu o seu pessoal para as possíveis consequências por entrarmos no vale sem grandes condições de visibilidade, onde os guerrilheiros poderiam surpreender e atingir a nossa tropa. A estranha passividade demonstrada depois da destruição dos seus redutos começava a inquietar parte do grupo. Os prisioneiros que nos acompanhavam, atados com cordas, também davam indícios de agitação. Entre cada cinco dos nossos combatentes seguia um inimigo aprisionado – situação que nos causava algum desconforto e receio. Mas tudo parecia demasiado fácil e normal naquela caravana.

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    O alferes estava radiante com a sua primeira missão como responsável pela orgânica do assalto ao acampamento inimigo! Essa alegria depressa esmoreceu, porque a inexperiência aliada à excessiva confiança só pode redundar em fracasso, quando não em fatalidade… e não demorou uma hora para acontecer o inesperado desenlace; sem nos darmos conta, ficámos encurralados no fundo do vale, à mercê dos tiros das armas inimigas. Momentos antes de entrarmos no vale, o sargento Coelho havia sugerido ao alferes uma alternativa mais segura… seguir a corta-mato antes do morro, evitando contorná-lo pelo vale!

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    No fundo do vale, a vegetação do lado direito era densa e verde e com árvores bem entroncadas; mas, do lado esquerdo só havia arbustos e capim entremeado por uma brenha impenetrável… e foi daí que saíram os primeiros tiros de armas inimigas. Em poucos segundos instalou-se a confusão entre os prisioneiros que tentavam escapulir-se. Enquanto os soldados se abrigavam das balas inimigas, os três guerrilheiros tentaram a fuga por entre as árvores da encosta do lado direito; as folhas que iam caindo sobre as nossas cabeças já nos diziam por onde passavam as balas. A equipa do cabo Santos e a secção do Vicente, tomaram posição para se defenderem de eventuais guerrilheiros que viessem da frente. Outros abrigaram-se junto das pedras em forma de muro que estavam no lado direito do trilho.

    Precipitadamente, o alferes Arménio deu ordens a uma das equipas do sargento Coelho para perseguir os três foragidos que se escapavam mata dentro. Apercebendo-se do efeito do impacto das balas nos troncos das árvores e vendo a poeira que faziam ali mesmo na sua frente, por onde o alferes ordenava a perseguição aos foragidos, o sargento Coelho contrariou aquela ordem, indicando aos seus homens para flagelarem os fugitivos mas, continuando a proteger-se junto das pedras. Olhando o alferes de frente, protestou energicamente contra uma ordem inadequada e que poderia ter como resultado a morte de alguns dos seus comandados. Não fossem os esporádicos tiros das armas, tudo parecia serenar quando o alferes virou a AR-10 na direcção do sargento Coelho e, numa posição ameaçadora, sentenciou:

 - Aqui, quem manda sou eu e quem desobedecer leva já um tiro! Mande o seu pessoal subir o morro e flagelar os inimigos…

    Por instantes, os que presenciavam a caricata cena temeram que o alferes cometesse alguma loucura, levando a situação para um desfecho dramático, uma vez que denotava um total descontrolo emocional – já não bastava a posição crítica em que nos encontrávamos, debaixo de fogo inimigo, aparecia agora mais um problema de pontos de vista antagónicos, quando estavam em perigo mais de três dezenas de combatentes.

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    O sargento Coelho, já veterano da guerra em Angola, embora em apuros, manteve a calma, deixou-se escorregar no capim e encurtar a distância que o separava do alferes. Com um golpe certeiro e eficaz, bateu com o coice da sua arma na mão direita do alferes, atirando-lhe a AR-10 por terra. Num ápice, enquanto o sargento Coelho deitou a mão à arma, dois dos soldados mais próximos manietaram o alferes que, ao ver-se impossibilitado de reagir, proferiu algumas palavras de ameaça, mas submeteu-se à força dos músculos. Enquanto isso, as armas inimigas não paravam de matraquear e os três turras deram à perna… sem ninguém lhes por mais a vista em cima.

    Resoluto e apoiado pelos homens do pelotão e pelo seu adjunto cabo Martinho, o sargento Coelho ordenou ao cabo Santos que atasse uma corda às mãos do alferes Arménio e que tomasse conta dele; deu instruções para as equipas da retaguarda tentarem subir ao morro e flagelar os guerrilheiros. O sargento Figueira concordou com o Coelho nessa tentativa para desalojar os frelimos daquela posição de domínio sobre o terreno, por ser a única forma de sairmos dali sem sofrer baixas.

    Tantos e inesperados acontecimentos ocorridos em poucos minutos, obrigaram a uma pausa para organizar a defesa e encontrar maneira de sair daquele buraco sob o fogo inimigo. Rastejando mais para trás, o sargento Figueira, com os seus, incumbiu-se de desalojar os guerrilheiros, os quais se viram obrigados a mudar de posição e melhorarem a sua defesa. Esta manobra deu oportunidade para a secção do sargento Vicente avançar umas vantajosas dezenas de metros e tomar posição em local propício para atirar sobre o morro onde estavam os guerrilheiros. Assim, num esforço conjugado entre os homens da frente e os da retaguarda, a coluna pode correr com os frelimos e reorganizar-se para continuar a marcha até ao acampamento. Aqueles quarenta minutos pareceram horas, tal a inquietação que nos afrontava perigosamente. 

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    Cabisbaixo e despido do poder de comando, o alferes não perdeu a postura perante a determinação do resoluto sargento Coelho. Mas, em tom de aviso, sempre foi dizendo que a desobediência é caso muito grave, sujeito a “conselho de guerra”, quando cometida em frente ao inimigo. Nas duas horas que demorou o resto do percurso, ninguém se preocupou com as consequências do desentendimento entre aqueles dois chefes, apesar das palavras ameaçadoras do alferes; porque o sargento Coelho apenas concentrava a atenção na forma de conduzir o grupo de homens até ao acampamento de Napota.

    Para grande parte daqueles combatentes, este episódio só veio atestar a filosofia do sargento Coelho perante esta guerra:

    "Aqui, no meio do mato, o poder está nas nossas mãos. Quando embrenhados na mata de armas na mão e sujeitos aos perigos da guerra, só pudemos contar connosco; como tal, a nossa sobrevivência depende das nossas decisões e determinação em as concretizar; e os nossos actos dependem apenas da nossa consciência, porque estamos longe dos mandantes e dos governantes.”

    A meio da tarde, entrámos no reduto onde as palhotas servem de arrecadação dos alimentos e do material de apoio; as viaturas Berliets aguardam o fim desta nossa intervenção de reconhecimento e limpeza da zona. Entretanto, até ao regresso a Mueda, as trincheiras e abrigos subterrâneos conservam a frescura para acolher os combatentes.

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    Ciente das responsabilidades que assumiu, o sargento Coelho mandou desatar as mãos do alferes, entregou-lhe a arma (sem carregador) e acompanhou-o até junto do comandante de companhia, capitão Mascarenhas Pessoa, a quem deu conhecimento provisório do ocorrido. O resto do pessoal tratou das formalidades habituais quanto à recolha de população, entregando-a aos cuidados da guarda à palhota onde os mesmos pernoitam até serem entregues no quartel de Nangade. O enfermeiro inteirou-se dessas pessoas e tratou de curar algumas feridas bem visíveis nos pés dos mais velhos; por sinal, estavam a sofrer com a lepra que lhes ruía as carnes, um grande flagelo que causa danos irreversíveis em parte da população.

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    O comandante da companhia reuniu todos os oficiais dentro da palhota do posto de rádio. De semblante carregado, quis saber pormenores e analisar as consequências da desobediência do sargento Coelho. Cá fora, as praças rondavam o local da reunião e mostravam a sua inquietação por temerem que o sargento Coelho fosse alvo de alguma punição. Pois, estavam cientes de que aquele acto de desobediência foi providencial para evitar uma tragédia sobre grande parte dos homens protagonistas daquela missão, com a perda de vidas. Agora, mais a frio, compreendiam que a situação era verdadeiramente complicada para o sargento. Foram poucos os que quiseram pronunciar-se sobre assunto tão melindroso. E todos aceitaram uma acareação entre o sargento Coelho e o alferes Arménio, os dois protagonistas daquele facto inadequado dentro da hierarquia duma tropa especial. Por sugestão do capitão e com a concordância dos presentes, não haveria qualquer acção disciplinar e tudo ficaria encerrado ali mesmo. Tal decisão foi bem aceite entre o restante pessoal da companhia. Aparentemente, parecia que tudo estava sanado, quanto à vertente disciplinar; mas, há sempre alguém incapaz de conter a sua raiva… que se veio a manifestar mais tarde, e com severidade desmesurada do tenente Castro Gonçalves.

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    As missões continuaram nos dias seguintes, mas outras situações bem mais dramáticas e com perdas de vidas se abateram sobre aquele grupo de homens que apenas queriam cumprir um dever que lhes impunham. Nem sempre entendemos as razões que a desobediência desconhece e que o bom senso determina. 

       Regresso a Mueda, 45 dias depois da saída... 

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CONSEQUÊNCIAS:

    Ora, dois meses depois deste acontecimento, a companhia de Paraquedistas foi destacada para assaltar um acampamento inimigo próximo do Vale de Miteda, sob o comando do tenente Castro Gonçalves; o sargento Coelho não concordou com a determinação de liquidar todas as pessoas que fossem encontradas, incluindo mulheres, velhos e crianças. Mais uma vez, considerado desobediência às ordens, pelo que foi sujeito a Processo disciplinar e aprisionado num Fortim da Ilha do Ivo, até ser aceite o "Inquérito" mandado instaurar pelo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, a pedido do sargento.

    O tenente da FAP Silva e Sousa, chefe da secção de Justiça, pediu voluntários para testemunhar, tendo aceite 40 dos 156 que se apresentaram a favor do sargento Coelho; pois, o sargento estava considerado um bom comandante operacional, pessoa prestável à generalidade dos seus camaradas de armas, distinto repórter de guerra e mereceu esse reconhecimneto por parte dos que testemunharam a seu respeito.

    Durante o "Inquérito militar", o sargento Coelho foi incumbido de reabastecer o pessoal da Companhia em operações no norte de Moçambique - missão que cumpriu a contento de todos, com esmero na qualidade da alimentração e prontidão no reabastecimento de rações de combate com boa regularidade, bem como apoio logístico e na recuperação de feridos em combate.

    Seis meses depois, o sargento Coelho foi chamado ao gabinete do comandante tenente-coronel Argentino Seixas e, na presença dos capitão-capelão Martins, tenente Castro Gonçalves, chefe da secretaria do Comando major Alegria Ribeiro; o tenente Silva e Sousa, chefe da Secção de Justiça, leu o Relatória das conclusões do "Inquérito", considerando o sargento Coelho ilibado de culpas, pelo fracasso da dita operação militar. O Comandante e o Capelão Martins abraçaram o sargento Coelho, eufóricos por se ter evitado um "conselho de Guerra" para julgar tal processo.

Assim, o sargento Coelho voltou à sua vida normal de operacional, repórter e professor dos militares que se propunham ir a exames no liceu Pero de Anaia, da Beira, onde algumas dezenas completaram os 1º e 2º cíclos liceais, melhorando as suas capacidades de emprego quando regressassem à vida civil.

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FORTIM DA ILHA DO IBO – PRISÃO POLÍTICA

     Ao ver a imagem deste fortim não pude conter a emoção que me tocou fundo por lá ter estado detido durante uma semana no ano de 1967. No decorrer de uma missão operacional a Sul de Antadora-Diaca, depois de ouvir as instruções do novo comandante de companhia: “vamos assaltar um acampamento onde pernoitam elementos da Frelimo, onde vivem famílias que os apoiam na logística, e tudo que mexer é para abater. Não vamos fazer prisioneiros, mesmo da população civil”. Como é sabido, os Pára-quedistas eram rigorosos e eficazes no cumprimento das missões de combate, mas não dizimavam população civil, especialmente mulheres e crianças.

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    Os murmúrios de descontentamento ouviram-se entre o pessoal da companhia; isso deu-me o ânimo suficiente para organizar o boicote à conclusão de tal assalto. Uma noite de chuva intensa ajudou a retardar o andamento da coluna que deveria estar nas proximidades do dito acampamento pela madrugada. Estando eu a recuperar dum ferimento sofrido na coxa esquerda, aquando duma emboscada no Vale de Miteda, por causa da fricção da farda molhada, comecei a ressentir-me e originei diversas paragens para ser socorrido pelo enfermeiro Armindo. Chegados ao local apropriado para preparar o assalto, a ribeira do Nango, afluente do rio Muera, estava caudalosa e impedia a passagem para o outro lado, onde estava localizado o dito acampamento. Vimos muitos sinais da presença de pessoas, mas nada mais foi encontrado.

    A primeira missão do Tenente resultou num fracasso operacional. Fui acusado e ameaçado com processo disciplinar e tribunal de guerra.

   Regressados a Diaca, acantonámos no Sagal onde estava o médico da companhia que me receitou diversos medicamentos para minorar a infecção que tinha na perna. Enquanto recuperava, outras missões foram levadas a cabo pela companhia, sem a minha presença.

    Após dois dias do regresso ao BCP31-Beira, fui informado pelo oficial de justiça (tenente da FAP Silva e Sousa, mais tarde meu camarada na Siderurgia Nacional) que tinha uma grave acusação com vista à minha detenção até que fosse concluído o processo disciplinar. Aproveitei os meus conhecimentos das Leis militares para elaborar uma exposição dirigida ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, tendo entregue uma cópia ao comando do Batalhão, mas só o fiz no dia seguinte ao registo da carta nos correios da Beira. Pois, corria o risco da carta ser interceptada antes de seguir ao destinatário.

Dois dias depois, pelas dez horas da noite fui detido no meu local de alojamento provisório (arrecadação de material de guerra do batalhão de que era responsável), onde trabalhava em fotografia. Pelas quatro da manhã embarquei num avião Nordatlas com destino a Porto Amélia, com escala em Nacala, escoltado por um oficial pára-quedista e dois agentes da PIDE; seguimos de barco até um fortim-prisão na ilha do Ibo, onde fiquei sozinho; deixaram uma manta, que me serviu de protecção durante as noites – transportei comigo uma cama portátil que, meses antes, tinha comprado a um soldado americano que entrevistei na Rodésia do Sul (era mercenário, veterano do Vietnam).

    Não havia água, mas saltava o muro e tinha o mar; pelo meio-dia, tinha a visita de uma patrulha do Exército, deslocada em Unimog, que deixava um prato com alimentos quentes, um cantil de água e uma ração de combate para três dias! Fazia meditação e escrevia num caderno escolar – pensava na vida… com esperança.

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    Por outros casos antecedentes, receei pela minha vida. E não fora a boa aceitação da exposição que enderecei ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, que deu origem a um longo e complicado processo de averiguações, onde cerca de 40 testemunhas, escolhidas dum grupo de mais de 150 que se dispuseram a defender-me, não sei o que teria sido o futuro da minha vida.

Joaquim Coelho

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NOTA:

Narrativa inscrita no Livro "Estilhaços" - Edições Sentinela

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