sábado, 18 de julho de 2026

Reflexões nas Guerras Ultramarinas

 

Ponto de situação da Guerra

 

Das tertúlias de reflexão sobre a situação do movimento de tropas, percepção do moral dos soldados e as relações com as populações brancas e negras, oficiais Pinto e Resendes, bem como os sargentos Franklin, Vicente, Figueira, Gil Rodrigues, Coelho e Gonçalves, destacados em Nacala, resultaram algumas conclusões realistas com efeitos no futuro próximo da nossa presença em África. Depois de debatidas as condições de divulgação dos nossos argumentos preventivos, concluíram pelo envio de duas “cartas abertas” aos jornais Diário de Moçambique e Notícias da Beira, como segue. 

 

  

Carta aos Molungos:

 

   Caros concidadãos, com todas as grandes transformações verificadas na sociedade logo após o fim da segunda guerra mundial, seria lógico e racional que os brancos a viver em África também entendessem os sinais que se foram evidenciando nas mudanças das relações entre os povos colonizados, ou oprimidos, e procurassem um relacionamento mais cordial para chegar à coexistência pacífica, evitando atiçar ódios e crispações que o tempo se encarregaria de dissipar. Os brancos residentes nos territórios ultramarinos, sobre administração portuguesa, são os mais retrógrados no aspecto da apetência pela cultura geral e pela informação global, menosprezando as tradições e direitos das gentes africanas, que não mostram sinais de as perceberem.

As acções de extrema crueldade e de injustiça praticadas por alguns colonos brancos, e pelas próprias autoridades administrativas, agravaram os ressentimentos acumulados ao longo de muitos anos de escravidão, servidão e exploração, conduzindo a formas brutais e desumanas de protesto. Disso, ninguém de bom-senso se deve admirar!

 


Os tempos que correm, agora mais céleres, já deram suficientes sinais do futuro que espera os brancos que teimam em não ver a realidade da nova África. Afastem as ilusões de que a guerra será o meio eficaz de repor a segurança nos territórios ultramarinos. Quanto mais tempo durar esta tragédia de todos os dias, mais ódios se acumulam. E quando alguém pretender fazer a paz com as populações martirizadas, aqueles que nasceram no mato e foram treinados para matar os ditos “exploradores” serão transformados em “polícias”… para  manter a ordem e a segurança das populações das cidades! 

 

Os colonos bem podem perder as ilusões de que tudo será pacificado com esses homens bem armados a patrulharem as ruas das suas residências. É que, eles, além de não terem formação nem condições morais para o fazerem, têm atrás de si uma gigantesca carga de contas a ajustar com o passado de repressão!

Será um erro trágico esperar o desenlace que ocorreu em 1961, no ex-Congo Belga, actual Zaire. A teimosia dos comerciantes brancos em abandonarem a capital Leopoldville, conforme instruções dos poucos militares belgas que lhes davam segurança, deu origem a uma selvática chacina, onde perderam a vida mais de dois mil brancos. Pois, ao verem-se encurralados pelas milícias rebeldes, os militares belgas abandonaram o território nos aviões que lhes restavam, com os resultados que se veio a confirmar: lojas queimadas e milhares de mortos e feridos. 

 


As notícias chegaram de madrugada a Luanda. Parte dos Paraquedistas que se encontravam nos quarteis foram mobilizados e foram embarcados para socorrer os colonos belgas em apuros. A pronta e arriscada participação de tropas portuguesas enviadas de Angola foi determinante, na reconquista do aeroporto e protecção dos brancos aí refugiados, evitou o avolumar da tragédia daquela população. 


Esperamos que este alerta possa evitar muitos desaires, nas desastrosas tentativas de recusar a realidade que se apresenta no horizonte próximo. Que sirva de serena reflexão aos nossos compatriotas residentes, mais atentos e responsáveis pelas vidas das suas famílias, bem como salvaguarda dos seus interesses e bens.

 

Nacala, Julho de 1966

 

Os Sargentos em Reflexão

 


 

sábado, 11 de abril de 2026

Resquícios das Guerras Ultramarinas

O Despertar dos Combatentes – em Tempo de guerra

    Nestes tempos sombrios da actualidade portuguesa e perturbações na sociedade mundial, é nosso dever realçar os feitos extraordinários nas descobertas de novos mundos e relacionamento amistoso dos nossos antepassados com outros povos; bem como dos seus engenhosos processos inovadores no desenvolvimento de novas técnicas de navegação e produção de alimentos para longas distâncias. Temos aqui um manancial de motivos para nos reanimar a esperança de lutarmos com convicção para melhorarmos o rumo da nossa vida colectiva, no sentido de melhores condições de vida  e de progresso harmonioso, dentro duma nação com história e valores de dimensão mundial.

   Os Combatentes portugueses, nas guerras ultramarinas, foram os continuadores das memoráveis descobertas e souberam partilhar muito das suas vivências com as populações das terras para onde foram destacados. Mas a guerra é sempre incómoda e destrutiva; razão por que é natural que nenhum ser humano deseje a guerra.

    As lembranças da guerra fazem parte de nós… são o espólio que não conseguimos entregar no quartel aquando da desmobilização; fazem parte do nosso espólio de combatentes participantes numa guerra estranha e mal compreendida! Na embriagues do destino, fomos atirados para a guerra e confrontados com situações de espantar! Uns mais que outros, todos sentiram a mordedura da guerra nas suas vidas, tanto nos acampamentos e destacamentos isolados e espalhados entre as savanas e matas, como nos aquartelamentos das vilas ou aldeamentos mais protegidos.

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   Quantas vezes, as deslocações se tornavam num inferno, tal a intensidade de fogo inimigo ou a potência das minas e dos fornilhos enterrados nas picadas. As morteiradas sobre os aquartelamentos eram um fadário angustiante, com as vidas pendentes enquanto não cessassem os vómitos das bocas-de-fogo e o zumbido da metralha nos ouvidos. Quando as camaratas eram atingidas e as camas desfeitas, os destroços nada valiam; tínhamos que fazer tudo de novo, reconstruir os alojamentos precários. As memórias da guerra são arrepiantes para muitos dos intervenientes directos e deixaram marcas inapagáveis.

   Os danos da guerra são dolorosos e deixam feridas difíceis de curar. Além da destruição dos bens, perdem-se amizades e as relações entre seres humanos que valorizam a vida e a sua essência. É contra todas essas perdas que devemos reagir dando valor à riqueza que nos resta - fortes laços de amizade e camaradagem, porque, entre os intervenientes nas guerras, esses valores foram a trave-mestra a segurar a frágil condição humana de muitos combatentes, nos primeiros tempos de missão. Alguns perderam a bússola das suas vidas, numa agitação anormal da consciência e das emoções; não fora a mística do companheirismo e a camaradagem cimentada nas mais difíceis condições de sobrevivência e a desgraça dos traumatizados teria atingido uma dimensão muito mais grave e penosa para a sociedade portuguesa.

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    Os jovens que um dia partiram das suas terras, arrancados do seio das suas famílias e dos seus empregos, foram desembarcados nos confins das terras de África, onde sobreviveram às angústias e aos perigos da guerra, também saberão responder adequadamente aos governantes que os desprezam como gente reles da sociedade. Saberão honrar as memórias de todos os que morreram ao serviço da Pátria, porque são os guardiães dos nobres valores da Nação civilizada e porque juraram defender a bandeira de Portugal contra os traidores que a amarrotam e os cobardes que a envergonham; a força da ética e da moral militares são válidas em todos os escalões da sociedade, tanto na formação dos cidadãos como na aplicação da justiça. Pena é que muitos façam por ignorar tal factor de estabilidade social na educação e no equilíbrio emocional.

   Ninguém se esqueça que os combatentes foram empurrados para a guerra em circunstâncias adversas aos seus interesses familiares, profissionais e formação escolar, com fundamento na preservação do território português, tão propagado pela comunicação social e nos discursos oficiais.

   As características do povo português têm pouco de guerreiros, mas muito de inocência ou moralismo ancestral, porque sempre fomos um povo mal compreendido pelos governantes com o complexo de superioridade justificado no compromisso mais absurdo da condição humana. A pregação dos superiores hierárquicos nunca foi capaz de justificar as razões da guerra nas terras ultramarinas, gratificante para alguns que colheram bons proventos, mas desgastante e dolorosa para a generalidade dos combatentes.

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    Por razões de conveniência partidária, política e interesses militares, o abandono das terras ultramarinas criou graves prejuízos a muitos milhares de cidadãos que lá viviam, sendo a culpa da descolonização atirada para cima dos combatentes desmobilizados e abandonados à sua sorte. Por isso, aqueles que conseguiram integrar-se na sociedade, trabalhar e participar no desenvolvimento do país, tiveram o mérito de galgar as dificuldades e viver; já o mesmo não aconteceu com os que nunca conseguiram limpar da sua mente os traumas dos momentos difíceis, os quais continuam a carregar dentro de si as imagens terríveis dos mortos e esfacelados caídos a seu lado, muitas vezes por falta de meios de socorro. Todos merecem respeito e reconhecimento, mas estes merecem, também, tratamentos de recuperação do stress de guerra, solidariedade pública, apoio social e financeiro.

        Amares, 25 de Abril de 2016

Joaquim Coelho – Combatente e jornalista

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segunda-feira, 24 de março de 2025

1961 - Reconquista do Norte de Angola

Em ANGOLA… Repórter de Guerra

    A fotografia sempre me fascinou. Desde novo, acompanhava os turistas nas visitas à cidade e Caves do Vinho do Porto em Gaia, sempre com a máquina de fole AGFA; fiz cursos de Jornalismo no “SÉCULO” e repórter na Escola do Álvaro Torrão, quando estava na Força Aérea, Base Aérea 1, em 1960. O princípio de uma longa caminhada em Reportagens pelo mundo: Angola, Moçambique, Vietname, Kosovo, Bósnia, Líbano, Caxemira, Paquistão. Começamos em Angola...

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   Antes de entrar na preparação para o curso de Paraquedista em Maio de 1961, aproveitei 15 dias de férias para acompanhar a equipa de Jornalistas, chefiada pelo Artur Agostinho da RTP, com vista a fazer a cobertura do início da guerra em Angola. Fui aceite para fazer reportagem para o Século e lá seguimos para Luanda. No decorrer das reuniões e reportagens conheci o Joaquim Cabral (repórter do CITA – Centro de Informação e Turismo), o José Dionísio, o João Azevedo, o Horácio Caio, o jovem Fernando Farinha e dois directores de jornais.

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   O ambiente em Luanda era tenso e todos os dias havia mortos baleados nas ruas da baixa, tendo as viaturas do Exército o trabalho de fazer a recolha dos corpos, logo pela manhã. Num ambiente de grande inquietação e incertezas sobre o que se passava na região das fazendas do café, chegavam ao Aeroporto os aviões civis que conseguiam evacuar algumas famílias foragidas da região dos Dembos, parte delas sem saberem do paradeiro dos outros fazendeiros e trabalhadores do café que tinham fugido para o meio das matas, tentando escapar à sanha terrorista dos bandoleiros da UPA.

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   Como estava em curso a saída de uma coluna militar para a região dos ataques terroristas, fui integrado na coluna de viaturas com os Caçadores Especiais, percorrendo o itinerário desde o Cacuaco até Quibaxe, onde encontramos picadas obstruídas com grandes árvores, perigosos buracos encobertos com ramos e valas fundas. Em cada curva ou zona de arribas havia o perigo das emboscadas, de onde saíam dezenas de terroristas de catana em punho e alguns canhangulos, ao que as tropas respondiam com as armas que tinham, dizimando muitos dos que enfrentavam a tropa de peito aberto. Sendo os Caçadores Especiais a tropa mais em prontidão e com experiência das lutas durante a revolta dos trabalhadores do algodão para a Cotonang, mostraram grande aptidão para enfrentar os terroristas. Os dias de confrontos deixavam um cenário desolador e de morte, onde as hienas e mabecos davam sinais de fartos manjares durante a noite.

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    Com muito custo e perigos consequentes, chegamos a Quibaxe, após uma semana de sairmos de Luanda. Aproveitei a boleia do avião civil que levou provisões para o pessoal da coluna e voltei a Luanda, para regressar à Metrópole, enquanto a coluna dos Caçadores Especiais prosseguiu mais para o norte.

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   Antes de partir para Portugal, estive alojado com os Paraquedistas na Fortaleza, local de aquartelamento das poucas dezenas que estavam em Angola desde 1960, chefiados pelo Tenente Manuel Claudino Martins Veríssimo, com uma boa secção de cães de guerra. Assim, fiquei ao corrente da organização de equipas de intervenção que iam embarcando para as zonas mais problemáticas, como Damba, 31 de Janeiro, Bembe, Negage…

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   Durante os últimos dias de Março, antes da Páscoa, participei no encontro de jornalistas e escritores angolanos e cabo-verdianos, na Casa do Porto, onde tive a sorte de encontrar gente culta e afectuosa; conversei e convivi com a Maria Ondina, professora franzina, aparentemente, reservada e bastante culta; enquanto esperamos para reunir com jornalistas numa casa virada para a Baía de Luanda; estivemos no Beileizão a saborear uns gelados… aí, o jornalista Ernesto Lara Filho, da revista Notícia, apresentou-me a irmã, poeta e médica Alda Lara, que havia chegado de Benguela com a Maria Ondina e logo entabulamos conversa sobre novas de Lisboa, e qual o meu papel em Angola! Trocamos ideias sobre os problemas da guerra, onde lhe disse estar em preparação nos para-quedistas e que, mais cedo ou mais tarde, iria fazer companhia aos camaradas que estavam em Angola desde 1960.

Joaquim Coelho

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Com os Caçadores Especiais e 6ªCC:

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sábado, 15 de março de 2025

Terror em Angola -15 de Março de 1961

Guerra em Angola - Foi há 64 anos, dia do terror 

   No contexto de mais um aniversário da guerra do ultramar, deixamos alguns apontamentos importantes para melhor entendermos os contornos de uma guerra que transtornou a vida de milhões de portugueses, provocou centenas de milhares de traumatizados, deixou dezenas de estropiados, cerca de dez mil mortos e milhões de famílias numa onda de incertezas e vidas suspensas. Noventa por cento da população jovem masculina foi mobilizada para a Guerra do Ultramar.

   Apesar das perturbações na vida da população portuguesa do continente e das colónias, os gastos no esforço de guerra provocaram um grande desenvolvimento económico e social, com a modernização das infraestruturas e novas indústrias.

   Perante o mundo, Portugal ficou bem posicionado em termos de organização e inovação na economia de guerra, na indústria do armamento, na logística e administração da máquina de guerra em três zonas distintas e afastadas do continente. Sendo as tropas portuguesas amplamente admiradas pela sua eficácia, resistência e poder de adaptação às diversas circunstâncias do terreno e do clima.  

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- Revolta no Cassange

   As mais graves escaramuças entre tropa portuguesa e os agricultores de algodão da Baixa do Cassange começaram na sequência de vários protestos por causa dos fracos salários pagos aos trabalhadores; estes entraram em greve por tempo indeterminado, tendo sido violentamente atacados por efectivos da polícia e do Exército. As aldeias da população da zona foram queimadas pelas bombas lançadas por aviões e os tumultos alastraram às fazendas de algodão da companhia algodoeira Cotonang (empresa alemã e belga), culminando com a chacina de milhares de trabalhadores e seus familiares. Os indiciados cabecilhas da rebelião foram presos e fuzilados na região de Gabela. As tropas metropolitanas em serviço em Angola (cerca de 1.700) participaram na repressão aos manifestantes, colaborando com a polícia e tropas locais (cerca de 5.000 efectivos indígenas).  

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- Em Fevereiro de 1961: Assalto às prisões de Luanda

   Com os poucos efectivos de segurança ocupados na região do Cassange, a agitação foi-se agravando em Luanda onde os revoltosos assaltaram a Casa de Reclusão Militar, tendo morrido um cabo; pretendendo soltar os seus dirigentes presos nas cadeias, os bandidos assaltaram a esquadra de S. Paulo, da Polícia de Segurança Pública, e a repartições do estado. Na refrega, foram mortos sete agentes da polícia que caíram numa cilada dos revoltosos e, em consequência, os colonos armados caçaram e lincharam vários assaltantes. No dia do funeral dos polícias, os desacatos começaram nas ruas e acabaram nos muceques, onde os colonos mataram muitos indígenas.

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- Em 15 de Março de 1961 : Início do terror

   Tiveram início os massacres, organizados pela União das Populações de Angola (UPA de Holden Roberto de origem Bakongo) e por militares congoleses, onde foram mortos e mutilados alguns milhares de colonos brancos e empregados negros, nas fazendas do café; especialmente nas zonas dos Dembos, Negage, Úcua, Nambuangongo, Zala, Quitexe, Nova Caipenda, Ambriz, Maquela do Zombo, Madimba, Luvaca, Buela e outras. 

   Em consequência, mobilizaram-se meios terrestres e aéreos para socorrer os residentes nas zonas ameaçadas, muitos dos quais conseguiram chegar a Luanda com os familiares. A escassez de efectivos militares obrigou a um desmesurado esforço para chegar aos pontos mais necessitados. As autoridades perderam o controlo das vias de comunicação para toda a zona Norte, onde foram destruídas pontes, obstruídas as estradas com derrube de árvores e abertura de valas. Alguns grupos de camionistas que tentaram avançar na direcção dos Dembos, tiveram que regressar por encontrarem as estradas cortadas; outros mais afoitos, caíram em emboscadas e foram mortos a tiros de canhangulo e à catanada.

   Em 22 de Março, integrei uma equipa de jornalistas e repórteres organizada pela RTP para acompanhar as primeiras colunas de Caçadores Especiais da 6ª CC, que conseguiu chegar até Quibaxe. Daí, tomei um avião civil de reabastecimento que me levou a Luanda.

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   Na cidade organizaram-se milícias para tentar evitar que os bandidos da UPA se aproximassem com a sua sanha monstruosa. Já em Abril, os ataques traiçoeiros e selvagens, utilizando catanas e granadas, aproximavam-se de Luanda, passando pelo Úcua, onde foram assassinados mais europeus e os empregados bailundos. Defesa da barragem das Mabutas, que fornecia energia a Luanda corria sérios riscos de ser atacada; civis e militares organizaram-se para a sua defesa.

  Ainda em Março e nos meses seguintes de 1961, as tropas especiais (caçadores especiais e pára-quedistas) e alguns pelotões do Exército começaram a reconquistar povoações e fazendas, como Bembe, Maria Teresa, Quicabo, Damba, Madimba, Maquela do Zombo, 31 de Janeiro, Songo, Mucaba, Toto. Foi com alguma surpresa que vieram a constatar que o empenhamento das missões religiosas protestantes teve um grande peso na orgânica e no engajamento de indígenas para a rebelião, já que os diversos documentos encontrados nos locais das missões demonstravam a conivência entre os missionários oriundos de países como os Estados Unidos, Bélgica, Inglaterra e Países nórdicos, bastante próximos dos dirigentes da UPA, cuja sede é no Congo Belga. Numa operação na zona de Cuimba, encontrámos diversas fotografias com elementos da UPA acompanhados de representantes de organizações americanas; e, mais tarde, foram encontradas mais fotos em Madimba e Buela, onde estavam também dirigentes da UPA em festas religiosas e na sede de Leopoldeville.  

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– Envolvimento do Governo americano

   Pois, Kennedy deu luz verde para a guerra em Angola, apoiando o dirigente tribal Holden Roberto, bacongo da tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital era Mbanza Congo, rebaptizada São Salvador do Congo pelos portugueses, que ali chegaram em 1482.

   A organização desenvolveu a actividade através de Manuel Sidney Barros Nekaka, enfermeiro na Missão Congregacional Americana do Dondi, no Huambo que, em 1942 se fixou em Leopoldville e, com apoio do pastor James Russel, organizou a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), surgida em 1954 e dois anos depois convertida na União dos Povos de Angola (UPA). A trajectória política do clã Nekaka foi sempre acompanhada pelos americanos. A memtalização para a revolta contra os brancos teve a sua principal origem nas escolas de aldeia, através dos pastores da Congregação Americana e outros servidores das Igrejas Evangélicas e Igreja Batista instaladas em povoações do Norte de Angola. Nas primeiras missões de reconhecimento e recuperação da segurança nessa região, durante o ano de 1961, as Tropas Paraquedistas encontraram diversos documentos e fotografias que testemunham a realização de Reuniões e festas nas  aldeias de S. Salvador do Congo, Maquela do Zombo e Sacandica. 

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   Holden Roberto foi criado em Leopoldville, onde foi baptizado pela Igreja Baptista e, em homenagem ao missionário americano que o apadrinhou, adoptou o nome de Holden Carson Graham. Usou ainda outros nomes como Joy Gilmore em cartas que enviou a Salazar, o que, segundo o anedotário angolano, levou o ditador a comentar: “Eles usam vários nomes para parecerem muitos”. Durante oito anos, Holden foi funcionário na administração colonial belga, mais interessado em futebol do que em política, mas, não podendo ser Matateu, aderiu ao movimento do tio em 1956. A sede da UPA no porto de Matadi, Congo-Brazaville, era frequentada por marinheiros negros americanos que introduziam material de propaganda para Angola e um desses marítimos, George Barnett, fundou no Lobito a primeira célula do movimento em Angola.

   Mais tarde, as missões protestantes americanas em Angola tornaram-se também células clandestinas da UPA e, graças aos missionários, Holden estabeleceu ligações com o American Committee on Africa, presidido por Eleanor Roosevelt, viúva do presidente Franklin Roosevelt e activistas dos direitos cívicos como o bispo Homer Jack, da Igreja Unida América e Canadá, que o apresentou ao então senador John Kennedy em Setembro de 1959. “Estive duas horas a explicar a Kennedy o sentido da nossa luta em Angola. Ele disse-me que os Estados Unidos tinham uma tradição anticolonial e não podiam continuar a apoiar o regime de escravatura em Angola. Concordámos que era preciso fazer alguma coisa para evitar que os comunistas tomassem conta do movimento de libertação de Angola”, escreveu mais tarde Holden.

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   As chatices de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o capitão Henrique Galvão se apoderou do paquete Santa Maria e ameaçou rumar a Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo $6.000 anuais, o que foi posteriormente aumentado para $10.000 e depois para $25.000/ano.

   Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando “ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal”.

   A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola, o Governo português menosprezou a informação.

   Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos pegaram nas catanas e massacraram mais de 1.000 brancos e 8.000 trabalhadores no Norte de Angola. Os brancos improvisaram milícias, que responderam também com violências e começou uma guerra com intervenção das tropas do Exércitgto Português, que se prolongou por 13 anos, com responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.

   Em Luanda, os brancos atiraram o carro do cônsul americano à baía, enquanto em Lisboa, em 21 de Março, houve manifestações frente à embaixada. Apesar dos protestos, o secretário de Estado Dean Rusk visitou Lisboa em 27 de Março com uma proposta de Kennedy, a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.

   O plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretário de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: “Portugal não está à venda”. Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se.

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Recolha e adaptação de Joaquim Coelho, Repórter de guerra

 

VER:   https://ultramarlembrar.blogspot.com