quinta-feira, 23 de julho de 2026

Heróis de Bronze > Vedetas de televisão

 

  HERÓIS ESQUUECIDOS!

 

  HOJE, TODOS OS QUE AJUDAM ALGUÉM, NEM QUE SEJA SALVAR UMA VIDA, O QUE É DE LOUVAR, SÃO HOMENAGEADOS ATÉ PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E TRATADOS QUASE COMO VEDETAS NAS TV'S.

 

 

E NÓS? OS ETERNOS ESQUECIDOS!

Mas há feridas que não se veem, mas que nunca fecharam.

E há silêncios que duram tanto tempo que quase parecem oficiais.

Nós, antigos combatentes da guerra de África, fomos enviados para um conflito que marcou uma geração inteira. Éramos jovens — muitos com 18, 19, 20 anos — arrancados das nossas famílias, das nossas aldeias, das nossas vidas, para uma guerra que não escolhemos, mas que tivemos de enfrentar. E enfrentámo-la com coragem, com camaradagem, com sacrifício, com o corpo e com a alma.


 Vivemos aquilo que ninguém devia viver: emboscadas, minas, noites de terror, calor sufocante, doenças, fome, isolamento, medo. Vimos camaradas estropiados, vimos camaradas morrerem nos nossos braços, vimos vidas interrompidas antes de começarem. E apesar de tudo, cumprimos o nosso dever. Fizemos o que nos mandaram fazer. Servimos Portugal.

Mas quando voltámos…

Voltámos para o silêncio.

Até hoje.

Não houve receções oficiais.

Não houve agradecimentos públicos.

Não houve reconhecimento nacional.

Não houve apoio psicológico, social ou institucional.

Voltámos para um país que queria esquecer a guerra — e, ao esquecer a guerra, esqueceu os homens que a viveram.

Enquanto nós tentávamos reconstruir a vida com memórias que nos perseguiam, o país seguia em frente como se nada tivesse acontecido. Muitos ficaram a lutar sozinhos contra traumas profundos, noites mal dormidas, pesadelos, ansiedade, depressão. Muitos carregaram tudo isto em silêncio, porque não havia espaço para falar, nem quem quisesse ouvir.

E hoje, passadas décadas, vemos algo que custa a engolir:

Qualquer ação mediática, qualquer missão curta, qualquer episódio que envolva câmaras, microfones ou holofotes, é imediatamente celebrado como “heroísmo”. São recebidos pelo Exm.º Sr.º Presidente da República, são homenageados nas televisões, são tratados como símbolos nacionais, quase como heróis.

E nós perguntamos, com toda a legitimidade:

Onde estavam essas homenagens quando milhares de jovens portugueses voltaram da guerra com o coração partido e a alma rasgada?

Onde estavam quando tantos ficaram a viver com feridas invisíveis que nunca mais sararam?

Onde estavam quando tantos camaradas partiram sem ouvir um simples “obrigado pelo que fizeste”?

Não escrevo isto por inveja.

Escrevo por justiça.

Escrevo porque há uma dívida moral que o país nunca pagou.

Escrevo porque uma geração inteira foi esquecida.

Escrevo porque muitos já não estão cá para ouvir aquilo que mereciam ter ouvido há décadas.

Escrevo porque ainda há quem carregue tudo isto sozinho, como se fosse apenas mais um capítulo da História — quando na verdade foi a vida deles.

Este texto é para lembrar.

Para honrar.

Para dizer aquilo que nunca foi dito alto e claro.

Aos meus camaradas — os que cá estão e os que já partiram — deixo o meu abraço.

Nós sabemos o que vivemos.

Nós sabemos o que perdemos.

Nós sabemos o preço que pagámos.

E mesmo que o país nunca o tenha dito, eu digo agora:

Vocês foram, e continuam a ser, heróis.

Heróis silenciosos, esquecidos, mas verdadeiros. 

Eduardo Gonçalves – 12 de Julho de 2026 










sábado, 18 de julho de 2026

Reflexões nas Guerras Ultramarinas

 

Ponto de situação da Guerra

 

Das tertúlias de reflexão sobre a situação do movimento de tropas, percepção do moral dos soldados e as relações com as populações brancas e negras, oficiais Pinto e Resendes, bem como os sargentos Franklin, Vicente, Figueira, Gil Rodrigues, Coelho e Gonçalves, destacados em Nacala, resultaram algumas conclusões realistas com efeitos no futuro próximo da nossa presença em África. Depois de debatidas as condições de divulgação dos nossos argumentos preventivos, concluíram pelo envio de duas “cartas abertas” aos jornais Diário de Moçambique e Notícias da Beira, como segue. 

 

  

Carta aos Molungos:

 

   Caros concidadãos, com todas as grandes transformações verificadas na sociedade logo após o fim da segunda guerra mundial, seria lógico e racional que os brancos a viver em África também entendessem os sinais que se foram evidenciando nas mudanças das relações entre os povos colonizados, ou oprimidos, e procurassem um relacionamento mais cordial para chegar à coexistência pacífica, evitando atiçar ódios e crispações que o tempo se encarregaria de dissipar. Os brancos residentes nos territórios ultramarinos, sobre administração portuguesa, são os mais retrógrados no aspecto da apetência pela cultura geral e pela informação global, menosprezando as tradições e direitos das gentes africanas, que não mostram sinais de as perceberem.

As acções de extrema crueldade e de injustiça praticadas por alguns colonos brancos, e pelas próprias autoridades administrativas, agravaram os ressentimentos acumulados ao longo de muitos anos de escravidão, servidão e exploração, conduzindo a formas brutais e desumanas de protesto. Disso, ninguém de bom-senso se deve admirar!

 


Os tempos que correm, agora mais céleres, já deram suficientes sinais do futuro que espera os brancos que teimam em não ver a realidade da nova África. Afastem as ilusões de que a guerra será o meio eficaz de repor a segurança nos territórios ultramarinos. Quanto mais tempo durar esta tragédia de todos os dias, mais ódios se acumulam. E quando alguém pretender fazer a paz com as populações martirizadas, aqueles que nasceram no mato e foram treinados para matar os ditos “exploradores” serão transformados em “polícias”… para  manter a ordem e a segurança das populações das cidades! 

 

Os colonos bem podem perder as ilusões de que tudo será pacificado com esses homens bem armados a patrulharem as ruas das suas residências. É que, eles, além de não terem formação nem condições morais para o fazerem, têm atrás de si uma gigantesca carga de contas a ajustar com o passado de repressão!

Será um erro trágico esperar o desenlace que ocorreu em 1961, no ex-Congo Belga, actual Zaire. A teimosia dos comerciantes brancos em abandonarem a capital Leopoldville, conforme instruções dos poucos militares belgas que lhes davam segurança, deu origem a uma selvática chacina, onde perderam a vida mais de dois mil brancos. Pois, ao verem-se encurralados pelas milícias rebeldes, os militares belgas abandonaram o território nos aviões que lhes restavam, com os resultados que se veio a confirmar: lojas queimadas e milhares de mortos e feridos. 

 


As notícias chegaram de madrugada a Luanda. Parte dos Paraquedistas que se encontravam nos quarteis foram mobilizados e foram embarcados para socorrer os colonos belgas em apuros. A pronta e arriscada participação de tropas portuguesas enviadas de Angola foi determinante, na reconquista do aeroporto e protecção dos brancos aí refugiados, evitou o avolumar da tragédia daquela população. 


Esperamos que este alerta possa evitar muitos desaires, nas desastrosas tentativas de recusar a realidade que se apresenta no horizonte próximo. Que sirva de serena reflexão aos nossos compatriotas residentes, mais atentos e responsáveis pelas vidas das suas famílias, bem como salvaguarda dos seus interesses e bens.

 

Nacala, Julho de 1966

 

Os Sargentos em Reflexão