quinta-feira, 12 de maio de 2011

Lembrar para não Esquecer - foi há 50 anos

 



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LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER


Aos que vão resistindo ao desgaste da vida e às investidas dos fazedores de crises que nos atormentam e hipotecam o futuro dos nossos filhos e netos e desgastam a nossa dignidade, venho lembrar que há 50 anos, em terras de Angola, os Pára-quedistas voluntariosos e valentes, organizados em pequenos grupos de combate, souberam elevar bem alto o nome e o valor dos Boinas Verdes.

Continua na memória dos sobreviventes que hoje conseguem contar a história dos graves acontecimentos e dos horrores praticados por sucessivas vagas de bandoleiros sanguinários que chacinaram, esventraram e mutilaram crianças, mulheres, velhos e novos, pretos e brancos no norte de Angola. Desde o Úcua ao Quitexe, passando por Nova Caipenda, Quibaxe, Nambuangongo, Cuimba, Madimba, Buela, Zalala, Damba, Quibocolo, Bungo, Mucaba e tantos outros lugares da região dos Dembos, onde os sinais do sangue derramado por inocentes indefesos atiçou o sentido patriótico e fortaleceu o espírito de sacrifício na luta contra as hordas assassinas. Com reduzidos recursos e muita vontade de vencer, os Pára-quedistas estiveram na linha da frente na defesa das populações mais atingidas pela selvajaria dos bandoleiros da UPA (União das Populações de Angola). Foi na missão de socorro aos defensores de Mucaba, entrincheirados dentro da igreja local; no Bungo, as capacidades de liderança do Alferes Pára-quedista Mota da Costa permitiram uma defesa eficaz; na Damba, onde um pequeno grupo de Boinas Verdes conseguiu suster os ataques; na povoação 31 de Janeiro, o Tenente Pára-quedista Veríssimo teve papel destacado na organização da defesa da população local, onde contou com a fidelidade e apoio do cabo de cipaios Sebastião, do chefe de posto Vailão e do soba Camassa.

 


 Foi no decorrer destas difíceis intervenções dos Pára-quedistas que tombaram os primeiros Boinas Verdes: o soldado Pára-quedista Domingos, durante a caminhada para Mucaba; o Alferes Pára-quedista Mota da Costa e o civil Caras Lindas, quando procuravam manter a ligação entre os que reparavam a ponte do Bungo e o soldado Pára-quedista Eugénio Dias, o civil António e dois bailundos que se dirigiram a uma fábrica de café e serração próxima na procura de material para a ponte. Para suprir a falta do Alferes Mota da Costa, o sargento Pára-quedista Joaquim Santiago assumiu a responsabilidade de coordenação das acções necessárias para evacuar os mortos e os feridos até à base do Negage. Helicópteros para evacuação não havia, apenas algumas viaturas civis e pequenos Unimogues eram os recursos disponíveis para percorrer picadas esburacadas e cortadas por árvores de grande porte.

Com audácia e tenacidade na defesa das gentes dessas terras martirizadas pela sanha assassina dos bandoleiros os Pára-quedistas demonstraram todo o seu saber e espírito de sacrifício no cumprimento do dever “honrando a Pátria de tal gente”. Os elogios e provas de gratidão vieram de todos os lados, os jornalistas tentavam colher mais informações dos acontecimentos. Depois das primeiras missões de reconquista e ocupação das localidades vandalizadas, os Caçadores Especiais e outras tropas que foram chegando a Luanda começaram a ocupação definitiva da região atribulada. As Tropas Pára-quedistas, já reforçadas com mais efectivos, entraram em acção nas grandes operações levadas a cabo nos saltos em Quipedro, na serra da Canda e em Sacandica (localidade fronteiriça com o ex-Congo Belga, no extremo norte de Angola), com intervenção a nível de companhia. Com o Batalhão e a Força Aérea bem organizados, em colaboração com as tropas de quadrícula instaladas nas zonas afectadas pela guerrilha, as missões dos Pára-quedistas passaram a ser rotineiras e normais.


 Para situar no tempo o sentimento dos que viveram os primeiros embates, não posso deixar de transcrever alguns recortes dos jornais de Luanda, onde são relatados episódios com intervenção de Pára-quedistas: 

 - Da entrevista do Soldado Eugénio Dias, que foi ferido durante o ataque dos bandoleiros quando se encontrava na tal fábrica do café do Bungo, ao jornalista Moutinho Pereira do jornal “O Comércio”, publicada em 12 de Maio de 1961: “O ataque foi na segunda-feira, dia 8. Uma coluna de militares e civis, todos armados, seguiu até à ponte que os bandidos tinham cortado, para a reparar. Ao chegar à ponte o nosso comandante disse-me para ficar com os civis e protegê-los em caso de ataque, enquanto eles seguiam. Fiquei sozinho, pois sabia que os meus camaradas não podiam ir a pé… os carros não podiam atravessar a ponte… Ao sair da fábrica do café, já distanciados, ouvimos um tiro entre o capim. Claro que ficámos atentos e vigilantes. Mas aquela arma que disparou, por certo devido a algum acidente, dera o alarme. Logo se seguiu um tiroteio intenso. Encontrámos centenas de bandoleiros meio encobertos pelo capim. Os dois bailundos ainda não tinham feito a tropa e estavam desarmados, conseguiram fugir e refugiar-se na fábrica… Dei por mim a disparar a minha metralhadora ligeira para o meio do capim. A meu lado o civil, ajudava-me como podia… Já ferido nas pernas, tentámos tomar outra posição…  À nossa roda tínhamos uma multidão ulutante, disposta a tudo para nos cortar a cabeça. Gritavam como demónios… Saltámos para o meio do capim alto, costas com costas, esperando o pior… por ali fiquei até perder as forças. Então, os meus camaradas conseguiram passar. Logo que se desenvencilharam daquela corja vieram à nossa procura… Encontraram-nos feridos mas ainda conscientes no meio do capim, apertando de encontro ao peito, as nossas armas.”



 

 - O jornalista Sotto Mayor do “Diário de Luanda” na edição de 17 de Maio de 1961 publicou alguns depoimentos sobre a situação no posto de 31 de Janeiro.

O repórter acompanhou uma das missões aéreas das avionetas do Aero Clube de Sanza Pombo e o chefe de posto e piloto Barros: “Aterrámos, cerca das 13 horas, no pequeno campo de aviação, onde se fizeram descargas de mantimentos e fomos convidados do chefe de posto Vailão e pelo tenente pára-quedista Veríssimo, dois valentes, à volta dos quais, pela sua actuação têm sido publicadas as mais largas reportagens. A defesa da povoação está toda concentrada à volta do edifício do posto, onde a população se recolheu. Pelas portas e janelas notam os sinais de sangue resultante das lutas que têm sido travadas, estando as varandas do prédio barricadas com sacos de areia e arame farpado. Durante a refeição, servida numa grande mesa onde tomaram lugar grande parte dos “páras” e comerciantes da região, tivemos ocasião de ouvir do próprio chefe de posto, uma curiosa narrativa pormenorizada dos acontecimentos registados. – “Nós, em dada altura, verificámos que não tínhamos condições de defesa. Evacuámos, portanto, imediatamente a povoação. Toda a população foi connosco. Seguimos para a Damba, sede de concelho. Foi no dia 16 de Abril de 1961. logo após a nossa chegada, deu-se o primeiro ataque à localidade. Colaborámos na defesa da Damba, neste e em mais três assaltos. Mas o nosso interesse era regressar o mais depressa possível ao 31 de Janeiro. No dia 27 conseguimos uma secção de Pára-quedistas, comandada pelo Tenente Veríssimo, para o nosso posto… Tivemos que lutar com muitas dificuldades. Eram obstáculos de toda a ordem – cortes profundos na estrada, árvores caídas, pontes danificadas. Era um nunca mais acabar.” O tenente Veríssimo relembra alguns acontecimentos passados na viagem: “Encontrámos ligeiras resistências durante o percurso de cerca de 84 quilómetros. No desvio para a povoação de Mucaba, a 12 quilómetros do destino, recuperámos diversos rapazes, portugueses africanos, que estavam prisioneiros dos bandoleiros no local conhecido por “Missão”. Temos tido diversos ataques, os primeiros de dia, os restantes de madrugada. Agora apenas têm tentado… mas depressa são repelidos e com baixas.”


Não havia tempo para pensar onde estava a razão; a necessidade de defender as populações indefesas e os postos isolados do norte de Angola era a prioridade, e a nossa fidelidade à Pátria impunha que cumpríssemos essas missões das quais saímos triunfantes, embora com grandes sacrifícios. Depois destas, muitas mais foram levadas a cabo com sucesso, as quais mereceram rasgados elogios e os mais altos louvores. Orgulhamo-nos dos nossos feitos e merecemos o reconhecimento da Nação. Apesar do ostracismo a que foram votados os combatentes portuguesas intervenientes nas guerras nas ultramarinas; dos cobardes não reza a história… muitos dos nossos governantes nunca souberam honrar a Pátria nem os juramentos e tentam desvirtuar os valores que “mais altos se levantam”.


 Joaquim Coelho – 2º Sargento Pára-quedista de 1961


(Publicado na Revista "Os Pára-quedistas")


In Livro: "O DESPERTAR DOS COMBATENTES"


 



 



NOTA: Este emblema PROVA que UPA não era "União dos Povos de Angola", como tem sido designada erradamente.


Foi retirado da farda de um comandante da UPA abatido no vale do rio M'Bridge, ao sul de Lucunga.


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quinta-feira, 17 de março de 2011

Memórias das Guerras Ultramarinas - 50 anos

 



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MEMÓRIAS DA GUERRA ULTRAMARINA – 50 ANOS


 A tragédia que anunciou o fim do Império ultramarino chegou em 4 de Fevereiro de 1961 a Luanda. A Casa de Reclusão Militar, a Cadeia de São Paulo e a 4ª Esquadra da PSP, foram atacadas por grupos de insurrectos que as assaltaram. A refrega sangrenta deu sete polícias e algumas dezenas de bandoleiros mortos. Foi uma madrugada de raiva que se anunciava por causa dos conflitos laborais com os trabalhadores produtores de algodão na Baixa do Cassange. A agitação na cidade de Luanda era perceptível desde que as autoridades portuguesas começaram a prender os cabecilhas da revolta contra a empresa Cotonang, que quis obrigar os agricultores a cultivar o algodão a preços mais reduzidos. O sossego em Luanda terminou abruptamente. No dia do funeral dos polícias, e nos dias que se seguiram, a população branca avançou contra as populações dos muceques e abateu centenas de negros. Foi o atiçar do ódio que se veio a espalhar pelas terras do norte de Angola, a partir do dia 15 de Março de 1961. Este dia ficará na memória de muitas famílias de colonos como o mais trágico acontecimento no norte de Angola. As atrocidades foram tão violentas e dramáticas que ninguém podia ficar indiferente à quantidade de vítimas, entre as quais, muitas mulheres e crianças esventradas.  

Os primeiros militares intervenientes, que resistiram ao tempo, têm gravado na memória os dramáticos acontecimentos ocorridos durante as missões que os levaram até aos confins daquele vasto território. As picadas cortadas com abatises ou valas profundas demoravam muitos dias a percorrer; o inimigo astuto, escondido entre o capim, aproveitava para atacar nos locais mais complicados para a defesa; as chuvas provocavam lamaçais de difícil progressão; o apoio aéreo, muito escasso, era um factor de preocupação permanente no socorro e evacuação aos feridos. Estes eram os principais obstáculos que os bravos soldados portugueses tiveram de enfrentar, até se conseguir estabilizar a ocupação das localidades vandalizadas, o que demorou cerca de cinco meses.

Nos primeiros tempos da guerra, os combatentes dos reduzidos efectivos militares tiveram que se esforçar até aos limites das suas capacidades humanas para socorrer as populações isoladas nos locais mais desprotegidos das povoações da região afectada pelos bandoleiros. Depois das atrocidades dos primeiros dias, os que escaparam, fugiram para outros locais na busca de protecção; muitas das vezes, acabaram por cair nas mãos dos sanguinários da UPA (União das Populações de Angola), que os mutilaram, deceparam e mataram.


As tropas mais activas e bem preparadas estavam a braços na contenção da revolta dos camponeses do Cassange e nas buscas aos muceques de Luanda. As companhias de Caçadores Especiais avançaram na reconquista das picadas e povoações dos Dembos, tendo sido a 6ª companhia que mais se notabilizou a dizimar tudo que era preto, com o Alferes Fernando Robles a destacar-se na guerra do “olho por olho, dente por dente”; a sua acção na reconquista do terreno da UPA ficou marcada por numerosas baixas entre mortos e feridos. A 5ª companhia andou a bater a zona do Caxito e Úcua, com recurso ao sistema da psico-social para acolhimento das populações, mas bastante repressivo para com os negros acusados de serem infiltrados da UPA.

Para socorrer os colonos e populações atacadas pelos bandoleiros, destacaram-se os grupos de Pára-quedistas organizados em secções, com especial relevo para a defesa das povoações de 31 de Janeiro, Damba, Maquela do Zombo, Sacandica, Quibocolo, Bungo, Songo, Mucaba, Lucunga e outras onde foram necessárias acções rápidas e eficazes. Destacaram-se alguns elementos mais ousados, entre eles, o Alferes Mota da Costa, os Tenentes Veríssimo e Mansilha, o sargento Santiago, os soldados Eugénio Dias e Pimentel. No decorrer das primeiras missões, morreram em combate o Alferes Mota da Costa, o soldado Domingos e o cabo Almeida Cunha (este por não se ter aberto o pára-quedas ao saltar sobre a serra da Canda).  

 

Para avançar com mais força para a reconquista das terras tomadas pela UPA, foram mobilizados os Batalhões de Caçadores 96 e 114 e o Esquadrão de Cavalaria 149, para a reconquista de Nambuangongo (santuário das forças da UPA), com o custo de várias dezenas de mortos e centenas de feridos. A Força Aérea foi conquistando os céus do norte de Angola à medida que foram sendo activadas pistas nas povoações; as condições logísticas e materiais permitiram apoiar os Pára-quedistas nas grandes operações de reconquista de Quipedro, Serra da Canda, Sacandica e Inga, locais de difícil acesso por terra.

 

Ainda no tempo da reconquista e ocupação de posições no terreno, o Manuel Joaquim da Rocha Bastos, pertencente à Companhia de Caçadores 168 do BCaç159, relatou duas situações bem complicadas no “baptismo de guerra”:

- “Quando a companhia seguia de Catete para a fazenda Maria Teresa, sofremos uma forte emboscada, com tiros vindos do meio do capim; o combate foi prolongado e a reacção obrigou à retirada do inimigo, mas atingiu um companheiro que não resistiu e morreu. O comandante da força entendeu que os bandoleiros não deviam ficar sem resposta adequada e pediu reforços ao Batalhão; com mais um pelotão, desencadeou uma batida por toda a zona e durante dois dias limpámos tudo que nos parecesse bandido. Mais tarde, instalados em Quipedro, não nos deram sossego durante quatro meses, havia semanas em que os ataques eram diários, o que nem permitia a aproximação e aterragem das avionetas para reabastecer ou levar o correio. Tivemos alguns confrontos directos com os bandoleiros, pois chegaram ao ponto de nos desafiar para fora do arame farpado e na zona onde aterravam os aviões.”

A guerra durou treze longos e dolorosos anos, por ela passaram mais de um milhão de combatentes, que deram o seu melhor ao serviço duma causa que pouco lhes dizia. Serviram a Pátria que juraram defender, independentemente de ideologias ou de sofismas. Dos cerca de 10.000 mortos, mais de 1.700 ficaram lá abandonados em cemitérios espalhados pelos mais distantes locais. A guerra deixou mais de 30.000 deficientes; muitos outros regressaram com graves sequelas no corpo e na alma, com as quais vivem os dramas dos traumas e das doenças que lhes tolhem a vida. Mas a grande maioria desses homens souberam manter intacta a dignidade dos bons portugueses, mesmo quando os governantes os desprezam e ostracizam. Foram estes oitocentos mil que, sem qualquer apoio ou reconhecimento pelo serviço prestado à Pátria, se instalaram nas mais diversas actividades produtivas, investindo os seus conhecimentos e dinheiros ao serviço de Portugal. Foi tal o desprezo e a humilhação manifestada pelos poderes públicos que alguns milhares acabaram por seguir o rumo da emigração. A persistência das Associações de Combatentes permitiu que o Estado começasse a prestar alguma ajuda aos antigos combatentes mais necessitados; especialmente a Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra tem prestado valioso apoio médico e logístico, além dos projectos que estão em curso para construção de estruturas capazes de alojar os que vivem mais isolados e carenciados; é um trabalho meritório que devemos apoiar com brio e convicção, mas estaremos atentos aos protagonistas indesejáveis.

 


Como disse há algum tempo, num debate público sobre a aferição dos valores que equilibram uma sociedade racional, mantenho a opinião de que a questão dos heróis sempre incomodou os cobardes e os acomodados. Seja no combate para defesa da Pátria, seja no combate aos fogos ou nas missões de salvamento das populações atingidas por flagelos e tempestades. A questão é mais pertinente quando ouvimos dizer e lemos comentários a tentar distorcer esses valores, referindo que os que desertaram foram mais corajosos do que os que foram para a guerra; que os cobardes são aqueles que aceitaram ir combater nas terras ultramarinas. Os valores da solidariedade, da colaboração, da defesa dos princípios democráticos e da paz não dependem de ideologias ou de regimes políticos; aceitam-se, defendem-se e praticam-se. Não há meias tintas; ou se é bom cidadão ou não. Os marginais, os parasitas, os cobardes e os traidores são nocivos à sociedade; uns porque são criminosos, outros são acomodados; é preciso reagir, ser solidário e produtivo. São esses arautos do laxismo e do facilitismo que degradam os valores que devem balizar a aquisição dos conhecimentos necessários ao desempenho com competência, saber e respeito. 

Sabemos que já lá vão 50 anos e o assunto das guerras ultramarinas não é tema recorrente nas escolas; o que é vergonhoso para a história de um país que deixou centenas de pessoas desenraizadas ou traumatizadas para o resto das suas vidas. Todos devem merecer respeito pelos anos passados em situações de perigo, sofrimento e privações de toda a ordem; uns aguentaram e foram valentes, outros fraquejaram e continuam a sofrer. Ainda somos muitos com direito de voto democrático, saberemos usá-lo com sentido do dever cumprido.

 Joaquim Coelho – combatente em Angola e Moçambique


(Publicado na Revista "O Veterano" da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra)


     .


 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Festas Felizes

   


 



VER: https://www.facebook.com/joaquim.coelho1


 


Aos amigos que visitam este espaço


Ou que respiraram os ares africanos,


Deixo votos de felicidade nas Festas


E mais o meu fervoroso abraço


Para que nos livrem dos desenganos


E nos deixem o caminho sem arestas.


 


Joaquim Coelho


 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Memórias de Luanda


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VENDILHÕES


Em todos os dias deste tempo nublado que o futuro me apresenta, procuro descobrir o que nos faz viver de olhos fechados para as coisas do mundo. Não há segredos que nos possam atormentar, quando afrontamos os perigos das matas que penetramos com os corpos desgastados pela voragem das contínuas missões no Norte de Angola. Já não há flechas nas azagaias dos bandidos – só arma fina – e a rotina faz-nos acreditar que a guerra vai durar até ao aniquilamento dos sonhos de todos os jovens que desembarcam em terras africanas e ficam de olhos arregalados perante a vastidão que os confunde nas emoções da descoberta.

   O meu corpo caminha aos solavancos, sem querer perceber as transformações que mexem com as memórias. Cada vez mais atento aos caminhos a percorrer, não perco o sentido no futuro nem deixo de questionar as razões da cobiça que outros países nutrem por estas ricas terras de Angola. Depois de muitas matas vasculhadas e muitos caminhos percorridos em busca dos bandidos enraivecidos, começo a entender as complexas relações entre os administradores das empresas estrangeiras aqui instaladas e os servidores dos poderes da Nação. É tudo uma questão de dinheiro! Andam por aí bem nutridos, misturados com os funcionários que nos contam estranhas histórias da costumeira da cidade, trocando benesses por contratos de concessões cujas cláusulas são uma grande fraude à economia nacional.

Quando ouço os impulsos dessa escumalha que enriquece à custa da desgraça da nação, nem quero acreditar que eles possam ser portugueses de raça lusitana! Talvez um dia venhamos a saber até onde vão os negócios desses vendilhões sem escrúpulos.    


Luanda, Março de 1962

Joaquim Coelho


in "O Despertar dos Combatentes"  pedidos para: jotasousa39@gmail.com


Luanda angola4.jpg

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Guiné-Pára-quedistas em acção

AMORTALHADOS

Somos valentes caminhantes do sertão
que a África nos destinou a prazo…
envolvidos no prelúdio da escuridão
caminhamos nos sulcos já pisados
temendo a afronta das minas furtivas
como os combatentes desventurados.

Enquanto somos vivos desenganados
bebemos dos charcos apodrecidos
que servem de oásis nas savanas
nos dias sem chuva… adormecidos
com as vidas levemente estagnadas
aprontamos as vestes do caixão
descarregado da carlinga do avião.


Joaquim Coelho




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sábado, 18 de setembro de 2010

Saltos na Serra da Canda - acidente

Pára-quedistas saltam na Serra da Canda - Angola - Acidente


Nunca foi bem esclarecido à família e amigos! Porque não foi recuperado o corpo do 1º Cabo Pára-quedista Claudino Almeida Cunha, morto na Serra da Canda. Deixamos aqui alguns esclarecimentos.



 

Bom dia, Caro Carlos Silva,

Relativamente ao assunto constante na sua mensagem infra e face a dados pesquisados e, também, cedidos por veteranos da Guerra do Ultramar, informa-se o seguinte:

O malogrado militar Claudino Almeida Cunha, 1.º Cabo Pára-Quedista, pertenceu à 2.ª Companhia de Caçadores Pára-Quedistas (2.ªCCP) do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 21 (BCP21), faleceu no dia 25 de Agosto de 1961, durante a Operação "Canda", em Angola.

Há referências do militar no livro "O Despertar dos Combatentes", da autoria de Joaquim Coelho, também Pára-Quedista, esteve em Angola (BCP21) e em Moçambique (BCP31), respectivamente, nos períodos de 1961 a 1963  e de 1966 a 1968. Em Angola, no período de 1961 a 1963, o escritor Joaquim Coelho, pertenceu ao mesmo Batalhão - BCP21 - do malogrado militar 1.º Cabo Pára-Quedista Claudino Almeida Cunha.

Transcrição de excertos do livro "O Despertar dos Combatentes" onde refere o Cabo Cunha:


Página 75:

" [...] O capitão Almendra, temendo a sorte do Pimentel, já se inquietava, porque minutos antes, ao sair de outro avião menos adequado para lançamento de pára-quedistas, o cabo Cunha havia sucumbido à queda-livre, sem que o pára-quedas se abrisse. Ao que parece, devido ao corte da tira extractora na longarina da porta do avião! [...]


Página 77:


"[...] Na hora do regresso faziam-se contas à vida ... A operação foi perfeita, com resultados bem mais consistentes do que o previsto. O capitão Almendra bem podia orgulhar-se do pessoal. Não fora a morte do cabo Almeida Cunha e tudo seriam alegrias. Mas a vida dos pára-quedistas está sempre presa por um fio ... que pode falhar entre o céu e a terra! [...] 


Esta mensagem vai com conhecimento do escritor Joaquim Coelho.


Se entretanto, chegar à nossa caixa de correio, mais informações sobre a questão em apreço, procederemos ao seu reenvio para o seu e-mail.


Saudações


A equipa do UTW


 --------------------------------------------------
From: "CARLOS MANUEL DOS SANTOS SILVA" <carlossilva42@live.com.pt>
Sent: Monday, June 28, 2010 9:53 PM
To: <ultramar@live.com.pt>
Subject: Procura de ex- Militares que estiveram nas ex- Províncias Ultramarinas     (CARLOS MANUEL DOS SANTOS SILVA)


Nome do responsável pelo anúncio (*): CARLOS MANUEL DOS SANTOS SILVA


O seu endereço de e-mail (*): carlossilva42@live.com.pt


O seu contacto telefónico (*): 214183566-969883216


 

Indique a localidade de residência (*): OUTURELA


Indique o (s) contacto (s) que deve (m) figurar no anúncio para ser contactado (*): carlossilva42@live.com.pt


Texto do Anúncio (*): BTPQ--1959-1961- DESAPARECIDO ATÉ AO MOMENTO, CONSTA QUE MORREU EM COMBATE EM 25 / 08 / 1961 EM ANGOLA -1.º CABO PÁRA-QUEDISTA CLAUDINO ALMEIDA CUNHA, TIO DA MINHA MULHER, FAMÍLIA ATÉ HOJE DESGOSTOSA, SOFRIDA, REVOLTADA, POR NÃO SABER DELE, NATURAL DE SATÃO, VISEU, SEM FUNERAL NEM INFORMAÇÕES DO SEU PARADEIRO.
EU CARLOS M S SILVA, FUI MILITAR NO RLL- RL- 2 EM -1ºT-80. JÁ PEDI INFORMAÇÕES AO EMFA
SEM RESPOSTA.
PEÇO E AGRADEÇO INFORMAÇÕES SOBRE O PARADEIRO, PARA DESCANSO DA FAMÍLIA PRINCIPALMENTE DOS IRMÃOS.
UM MUITO OBRIGADO.
OBS- ESTEVE NO BTP 21 ANGOLA


 A VERDADE:  

Aconteceu que a densidade da mata onde caiu o Cabo Pára-quedista Claudino Almeida Cunha era de tal maneira impenetrável que não permitiu que o corpo fosse encontrado, sendo infrutíferas as diversas buscas feitas nos dias seguintes à queda. Tratava-se de um local com terreno muito acidentado e muita floresta. O seu pára-quedas não abriu devido à ruptura da tira extractora. Depois se concluir pela impossibilidade da recuperação dos seus restos mortais, procedeu-se a uma singela homenagem com as devidas honras militares pelo seu falecimento.


Joaquim de Sousa Coelho – Pára-quedista em Angola de 1961 a 1963


 Mais tarde, o corpo do malogrado 1º cabo pára-quedistaClaudino Cunha foi recuperado e sepultado no Cemitério Novo de Luanda (Santana).i 


 Foto do Pimentel, também em perigo sobre a serra da Canda.



domingo, 20 de junho de 2010

A Guerra e a Descolonização

 




 


Os militares Portugueses cumpriram a sua missão, muitas vezes para além do que a Pátria lhes pedia.


 



Por causa da guerra, os combatentes viram muitos dos seus sonhos adiados ou perdidos. 



   AS CAUSAS DA GUERRA E OS TRAUMAS


 Depois da guerra em Angola, onde fundamentei a minha razão de basculhar tudo até encontrar a verdade, passados os anos do desespero e os efeitos da matança de 1961, comecei a perceber a dimensão do confronto de interesses dos países potencialmente desenvolvidos à custa da desgraça que caiu sobre os povos residentes nos países com grandes quantidades de matéria-prima e reservas minerais de grande consumo nos países industriais mais avançados.


Por causa das riquezas alheias, desencadeiam-se guerras que dilaceram os países em construção. Angola e Moçambique poderiam ter-se desenvolvido harmoniosamente e em paz se não estivessem por detrás os interesses dos gananciosos pelas ricas reservas naturais emergentes nesses países. E, só depois de tudo desintegrado pelas máquinas de guerra, tomámos consciência do que se perdeu, incluindo os laços de amizade e os meios onde nascemos e vivemos em harmonia com a natureza. Não fossem esses interesses antagónicos dos países mais desenvolvidos, o entendimento com os representantes dos povos com os quais estivemos em guerra poderia ter seguido o caminho dos interesses mútuos e ter-se-ia evitado tanta desgraça, ódios e prejuízos. Como já referi neste espaço, tenho familiares que foram escorraçados e gravemente afectados no seu património e na sua dignidade. Mas, culpar os combatentes por tal desastre na descolonização é não querer perceber a dimensão das forças que nos combatiam no exterior das terras africanas e que impediam qualquer entendimento com os povos locais. A voracidade das forças em presença foi a causa da guerra civil desencadeada após a descolonização.  


Os danos da guerra são dolorosos e deixam feridas difíceis de curar. Além da destruição dos bens, perdem-se amizades e as relações entre seres humanos não valorizam a vida e a sua essência. É contra todas essas perdas que procuro reagir dando valor à riqueza que nos resta - fortes laços de amizade e camaradagem porque, entre os intervenientes nas guerras, esses valores foram a trave mestra a segurar a frágil condição humana de muitos combatentes, nos primeiros tempos de missão. Alguns perderam a bússola das suas vidas, numa agitação anormal da consciência e das emoções; não fora a mística do companheirismo e a desgraça dos traumatizados teria atingido uma dimensão muito mais grave e penosa para a sociedade portuguesa.      


          Joaquim Coelho


 VER:  https://guerracolonial61.wixsite.com/coelho



Material de guerra apreendido ao inimigo. Armas que nos poderiam matar!


 


Os "retornados" perderam muitos dos seus bens, as ligações à terra onde nasceram ou viveram felizes, mas sobreviveram há chacina, porque a tropa portuguesa nunca os abandonou.


leopoldville-postcard-1960.jpg 


É preciso lembrar que, no antigo Congo Belga, em 1960/61, foram chacinados mais de três mil colonos brancos, que recusaram abandonar as suas lojas e haveres, mesmo depois dos militares belgas embarcarem nos últimos aviões existentes no aeroporto de Leopoldville, com com a independência.


Mais de dez mil combatentes perderam a vida na guerra.


 





 


 

terça-feira, 23 de março de 2010

Música Fascinante



Aos amantes da música africana, vejam este link:


 


https://videos.sapo.pt/t6D6S3mfbFzhMvFAfC8n


 


Bem-vindos a este espaço.


 



 


 


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segunda-feira, 22 de março de 2010

Dia da POESIA


Sendo ontem o Dia da POESIA, aqui deixo dois poemas dos tempos que andei por África:


 


    A MÍSTICA DO BATUQUE


 


Em noites de refulgente luar


os corpos todos se agitam


ao som do tam-tam-tam


onde mais emoções palpitam.


 


- Por quinze tostões e um doce


podes ter o meu corpo quente


não pagas imposto, e se fosse


uma noite bem diferente?


 


Assim falou a mulatinha


de voz piamenta e terna,


ao roçar na minha perna!


 


É a miséria madura e crua


da menina que se oferece nua


na esteira em noite escura


ao som das marimbas pretas


dos batuques desta rua


onde gemem as silhuetas


que rasgam negros desejos.


 


A vida nos bairros fantasmas


onde resvalam os beijos


e os lamentos de solidão...


são arestas, são escamas


a torturarem a tesão!


 


             Luanda, Janeiro de 1962


 


  Joaquim Coelho




 



 


   AEROGRAMA PERDIDO


 


Quando eu regressar da jornada


que a Pátria me determinou


porei fim a esta angústia


de saber aferir a razão


porque falharam os aerogramas


que me davam a ilusão


de acreditar no amor adiado


como forma de salvação


do coração destroçado.


 


As vicissitudes são tantas


neste espaço dos medos


que já não sei saborear o amor


nem do teu corpo os segredos


e o coração amarrado


à penúria dum papel


é como um corpo amolgado


antes de saborear o mel.


 


Não me deixes na solidão


destes caminhos minados


onde se rompem os corpos


feridos e ensanguentados


na tragédia das picadas


perdidas na paisagem


com molduras de espingardas.


 


Deixa-me olhar a imagem


que um dia te roubei


na planície da juventude


onde desagua toda a verdade


dum amor que nos uniu


na lonjura da distância


que esta guerra pariu.


 


Não estilhaces o meu corpo


com a arma do silêncio…


a fuga não é razão


para me desamparares


no meio deste sertão…


se os seres nascem aos pares


o meu é par do teu


como o teu é par do meu.


 


Antes do fim há um sinal


que revela as emoções


de quem anda à deriva…


ainda espero a carta


que me traga a salvação


e o consolo do refúgio


que está no teu coração.


 


        Nacala, Novembro de 1966


 


  Joaquim Coelho




 


 

quinta-feira, 4 de março de 2010

Pemba - Moçambique, FESTIVAL TAMBO



Para os que amam ou gostam da cultura africana, especialmente para os Moçambicanos, temos o Festival Tambo Interrnacional:


 



 
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Tambo Tambulani Tambo

E-mail Tambo Tambulani Tambo
tambotambulanitambo@yahoo.com
Vitor Raposo + 258 82 66 13 400

Novidades - Tambo no www



 


Ver link: http://tambo.nl


 


Vídeo de 2009:  <object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/X_X2kgHptrU&hl=pt_BR&fs=1&"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/X_X2kgHptrU&hl=pt_BR&fs=1&" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="295"></embed></object>



 


   Parabéns aos participantes.