segunda-feira, 22 de março de 2010

Dia da POESIA


Sendo ontem o Dia da POESIA, aqui deixo dois poemas dos tempos que andei por África:


 


    A MÍSTICA DO BATUQUE


 


Em noites de refulgente luar


os corpos todos se agitam


ao som do tam-tam-tam


onde mais emoções palpitam.


 


- Por quinze tostões e um doce


podes ter o meu corpo quente


não pagas imposto, e se fosse


uma noite bem diferente?


 


Assim falou a mulatinha


de voz piamenta e terna,


ao roçar na minha perna!


 


É a miséria madura e crua


da menina que se oferece nua


na esteira em noite escura


ao som das marimbas pretas


dos batuques desta rua


onde gemem as silhuetas


que rasgam negros desejos.


 


A vida nos bairros fantasmas


onde resvalam os beijos


e os lamentos de solidão...


são arestas, são escamas


a torturarem a tesão!


 


             Luanda, Janeiro de 1962


 


  Joaquim Coelho




 



 


   AEROGRAMA PERDIDO


 


Quando eu regressar da jornada


que a Pátria me determinou


porei fim a esta angústia


de saber aferir a razão


porque falharam os aerogramas


que me davam a ilusão


de acreditar no amor adiado


como forma de salvação


do coração destroçado.


 


As vicissitudes são tantas


neste espaço dos medos


que já não sei saborear o amor


nem do teu corpo os segredos


e o coração amarrado


à penúria dum papel


é como um corpo amolgado


antes de saborear o mel.


 


Não me deixes na solidão


destes caminhos minados


onde se rompem os corpos


feridos e ensanguentados


na tragédia das picadas


perdidas na paisagem


com molduras de espingardas.


 


Deixa-me olhar a imagem


que um dia te roubei


na planície da juventude


onde desagua toda a verdade


dum amor que nos uniu


na lonjura da distância


que esta guerra pariu.


 


Não estilhaces o meu corpo


com a arma do silêncio…


a fuga não é razão


para me desamparares


no meio deste sertão…


se os seres nascem aos pares


o meu é par do teu


como o teu é par do meu.


 


Antes do fim há um sinal


que revela as emoções


de quem anda à deriva…


ainda espero a carta


que me traga a salvação


e o consolo do refúgio


que está no teu coração.


 


        Nacala, Novembro de 1966


 


  Joaquim Coelho




 


 

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