quinta-feira, 17 de março de 2011

Memórias das Guerras Ultramarinas - 50 anos

 



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MEMÓRIAS DA GUERRA ULTRAMARINA – 50 ANOS


 A tragédia que anunciou o fim do Império ultramarino chegou em 4 de Fevereiro de 1961 a Luanda. A Casa de Reclusão Militar, a Cadeia de São Paulo e a 4ª Esquadra da PSP, foram atacadas por grupos de insurrectos que as assaltaram. A refrega sangrenta deu sete polícias e algumas dezenas de bandoleiros mortos. Foi uma madrugada de raiva que se anunciava por causa dos conflitos laborais com os trabalhadores produtores de algodão na Baixa do Cassange. A agitação na cidade de Luanda era perceptível desde que as autoridades portuguesas começaram a prender os cabecilhas da revolta contra a empresa Cotonang, que quis obrigar os agricultores a cultivar o algodão a preços mais reduzidos. O sossego em Luanda terminou abruptamente. No dia do funeral dos polícias, e nos dias que se seguiram, a população branca avançou contra as populações dos muceques e abateu centenas de negros. Foi o atiçar do ódio que se veio a espalhar pelas terras do norte de Angola, a partir do dia 15 de Março de 1961. Este dia ficará na memória de muitas famílias de colonos como o mais trágico acontecimento no norte de Angola. As atrocidades foram tão violentas e dramáticas que ninguém podia ficar indiferente à quantidade de vítimas, entre as quais, muitas mulheres e crianças esventradas.  

Os primeiros militares intervenientes, que resistiram ao tempo, têm gravado na memória os dramáticos acontecimentos ocorridos durante as missões que os levaram até aos confins daquele vasto território. As picadas cortadas com abatises ou valas profundas demoravam muitos dias a percorrer; o inimigo astuto, escondido entre o capim, aproveitava para atacar nos locais mais complicados para a defesa; as chuvas provocavam lamaçais de difícil progressão; o apoio aéreo, muito escasso, era um factor de preocupação permanente no socorro e evacuação aos feridos. Estes eram os principais obstáculos que os bravos soldados portugueses tiveram de enfrentar, até se conseguir estabilizar a ocupação das localidades vandalizadas, o que demorou cerca de cinco meses.

Nos primeiros tempos da guerra, os combatentes dos reduzidos efectivos militares tiveram que se esforçar até aos limites das suas capacidades humanas para socorrer as populações isoladas nos locais mais desprotegidos das povoações da região afectada pelos bandoleiros. Depois das atrocidades dos primeiros dias, os que escaparam, fugiram para outros locais na busca de protecção; muitas das vezes, acabaram por cair nas mãos dos sanguinários da UPA (União das Populações de Angola), que os mutilaram, deceparam e mataram.


As tropas mais activas e bem preparadas estavam a braços na contenção da revolta dos camponeses do Cassange e nas buscas aos muceques de Luanda. As companhias de Caçadores Especiais avançaram na reconquista das picadas e povoações dos Dembos, tendo sido a 6ª companhia que mais se notabilizou a dizimar tudo que era preto, com o Alferes Fernando Robles a destacar-se na guerra do “olho por olho, dente por dente”; a sua acção na reconquista do terreno da UPA ficou marcada por numerosas baixas entre mortos e feridos. A 5ª companhia andou a bater a zona do Caxito e Úcua, com recurso ao sistema da psico-social para acolhimento das populações, mas bastante repressivo para com os negros acusados de serem infiltrados da UPA.

Para socorrer os colonos e populações atacadas pelos bandoleiros, destacaram-se os grupos de Pára-quedistas organizados em secções, com especial relevo para a defesa das povoações de 31 de Janeiro, Damba, Maquela do Zombo, Sacandica, Quibocolo, Bungo, Songo, Mucaba, Lucunga e outras onde foram necessárias acções rápidas e eficazes. Destacaram-se alguns elementos mais ousados, entre eles, o Alferes Mota da Costa, os Tenentes Veríssimo e Mansilha, o sargento Santiago, os soldados Eugénio Dias e Pimentel. No decorrer das primeiras missões, morreram em combate o Alferes Mota da Costa, o soldado Domingos e o cabo Almeida Cunha (este por não se ter aberto o pára-quedas ao saltar sobre a serra da Canda).  

 

Para avançar com mais força para a reconquista das terras tomadas pela UPA, foram mobilizados os Batalhões de Caçadores 96 e 114 e o Esquadrão de Cavalaria 149, para a reconquista de Nambuangongo (santuário das forças da UPA), com o custo de várias dezenas de mortos e centenas de feridos. A Força Aérea foi conquistando os céus do norte de Angola à medida que foram sendo activadas pistas nas povoações; as condições logísticas e materiais permitiram apoiar os Pára-quedistas nas grandes operações de reconquista de Quipedro, Serra da Canda, Sacandica e Inga, locais de difícil acesso por terra.

 

Ainda no tempo da reconquista e ocupação de posições no terreno, o Manuel Joaquim da Rocha Bastos, pertencente à Companhia de Caçadores 168 do BCaç159, relatou duas situações bem complicadas no “baptismo de guerra”:

- “Quando a companhia seguia de Catete para a fazenda Maria Teresa, sofremos uma forte emboscada, com tiros vindos do meio do capim; o combate foi prolongado e a reacção obrigou à retirada do inimigo, mas atingiu um companheiro que não resistiu e morreu. O comandante da força entendeu que os bandoleiros não deviam ficar sem resposta adequada e pediu reforços ao Batalhão; com mais um pelotão, desencadeou uma batida por toda a zona e durante dois dias limpámos tudo que nos parecesse bandido. Mais tarde, instalados em Quipedro, não nos deram sossego durante quatro meses, havia semanas em que os ataques eram diários, o que nem permitia a aproximação e aterragem das avionetas para reabastecer ou levar o correio. Tivemos alguns confrontos directos com os bandoleiros, pois chegaram ao ponto de nos desafiar para fora do arame farpado e na zona onde aterravam os aviões.”

A guerra durou treze longos e dolorosos anos, por ela passaram mais de um milhão de combatentes, que deram o seu melhor ao serviço duma causa que pouco lhes dizia. Serviram a Pátria que juraram defender, independentemente de ideologias ou de sofismas. Dos cerca de 10.000 mortos, mais de 1.700 ficaram lá abandonados em cemitérios espalhados pelos mais distantes locais. A guerra deixou mais de 30.000 deficientes; muitos outros regressaram com graves sequelas no corpo e na alma, com as quais vivem os dramas dos traumas e das doenças que lhes tolhem a vida. Mas a grande maioria desses homens souberam manter intacta a dignidade dos bons portugueses, mesmo quando os governantes os desprezam e ostracizam. Foram estes oitocentos mil que, sem qualquer apoio ou reconhecimento pelo serviço prestado à Pátria, se instalaram nas mais diversas actividades produtivas, investindo os seus conhecimentos e dinheiros ao serviço de Portugal. Foi tal o desprezo e a humilhação manifestada pelos poderes públicos que alguns milhares acabaram por seguir o rumo da emigração. A persistência das Associações de Combatentes permitiu que o Estado começasse a prestar alguma ajuda aos antigos combatentes mais necessitados; especialmente a Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra tem prestado valioso apoio médico e logístico, além dos projectos que estão em curso para construção de estruturas capazes de alojar os que vivem mais isolados e carenciados; é um trabalho meritório que devemos apoiar com brio e convicção, mas estaremos atentos aos protagonistas indesejáveis.

 


Como disse há algum tempo, num debate público sobre a aferição dos valores que equilibram uma sociedade racional, mantenho a opinião de que a questão dos heróis sempre incomodou os cobardes e os acomodados. Seja no combate para defesa da Pátria, seja no combate aos fogos ou nas missões de salvamento das populações atingidas por flagelos e tempestades. A questão é mais pertinente quando ouvimos dizer e lemos comentários a tentar distorcer esses valores, referindo que os que desertaram foram mais corajosos do que os que foram para a guerra; que os cobardes são aqueles que aceitaram ir combater nas terras ultramarinas. Os valores da solidariedade, da colaboração, da defesa dos princípios democráticos e da paz não dependem de ideologias ou de regimes políticos; aceitam-se, defendem-se e praticam-se. Não há meias tintas; ou se é bom cidadão ou não. Os marginais, os parasitas, os cobardes e os traidores são nocivos à sociedade; uns porque são criminosos, outros são acomodados; é preciso reagir, ser solidário e produtivo. São esses arautos do laxismo e do facilitismo que degradam os valores que devem balizar a aquisição dos conhecimentos necessários ao desempenho com competência, saber e respeito. 

Sabemos que já lá vão 50 anos e o assunto das guerras ultramarinas não é tema recorrente nas escolas; o que é vergonhoso para a história de um país que deixou centenas de pessoas desenraizadas ou traumatizadas para o resto das suas vidas. Todos devem merecer respeito pelos anos passados em situações de perigo, sofrimento e privações de toda a ordem; uns aguentaram e foram valentes, outros fraquejaram e continuam a sofrer. Ainda somos muitos com direito de voto democrático, saberemos usá-lo com sentido do dever cumprido.

 Joaquim Coelho – combatente em Angola e Moçambique


(Publicado na Revista "O Veterano" da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra)


     .


 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Festas Felizes

   


 



VER: https://www.facebook.com/joaquim.coelho1


 


Aos amigos que visitam este espaço


Ou que respiraram os ares africanos,


Deixo votos de felicidade nas Festas


E mais o meu fervoroso abraço


Para que nos livrem dos desenganos


E nos deixem o caminho sem arestas.


 


Joaquim Coelho


 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Memórias de Luanda


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VENDILHÕES


Em todos os dias deste tempo nublado que o futuro me apresenta, procuro descobrir o que nos faz viver de olhos fechados para as coisas do mundo. Não há segredos que nos possam atormentar, quando afrontamos os perigos das matas que penetramos com os corpos desgastados pela voragem das contínuas missões no Norte de Angola. Já não há flechas nas azagaias dos bandidos – só arma fina – e a rotina faz-nos acreditar que a guerra vai durar até ao aniquilamento dos sonhos de todos os jovens que desembarcam em terras africanas e ficam de olhos arregalados perante a vastidão que os confunde nas emoções da descoberta.

   O meu corpo caminha aos solavancos, sem querer perceber as transformações que mexem com as memórias. Cada vez mais atento aos caminhos a percorrer, não perco o sentido no futuro nem deixo de questionar as razões da cobiça que outros países nutrem por estas ricas terras de Angola. Depois de muitas matas vasculhadas e muitos caminhos percorridos em busca dos bandidos enraivecidos, começo a entender as complexas relações entre os administradores das empresas estrangeiras aqui instaladas e os servidores dos poderes da Nação. É tudo uma questão de dinheiro! Andam por aí bem nutridos, misturados com os funcionários que nos contam estranhas histórias da costumeira da cidade, trocando benesses por contratos de concessões cujas cláusulas são uma grande fraude à economia nacional.

Quando ouço os impulsos dessa escumalha que enriquece à custa da desgraça da nação, nem quero acreditar que eles possam ser portugueses de raça lusitana! Talvez um dia venhamos a saber até onde vão os negócios desses vendilhões sem escrúpulos.    


Luanda, Março de 1962

Joaquim Coelho


in "O Despertar dos Combatentes"  pedidos para: jotasousa39@gmail.com


Luanda angola4.jpg

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Guiné-Pára-quedistas em acção

AMORTALHADOS

Somos valentes caminhantes do sertão
que a África nos destinou a prazo…
envolvidos no prelúdio da escuridão
caminhamos nos sulcos já pisados
temendo a afronta das minas furtivas
como os combatentes desventurados.

Enquanto somos vivos desenganados
bebemos dos charcos apodrecidos
que servem de oásis nas savanas
nos dias sem chuva… adormecidos
com as vidas levemente estagnadas
aprontamos as vestes do caixão
descarregado da carlinga do avião.


Joaquim Coelho




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sábado, 18 de setembro de 2010

Saltos na Serra da Canda - acidente

Pára-quedistas saltam na Serra da Canda - Angola - Acidente


Nunca foi bem esclarecido à família e amigos! Porque não foi recuperado o corpo do 1º Cabo Pára-quedista Claudino Almeida Cunha, morto na Serra da Canda. Deixamos aqui alguns esclarecimentos.



 

Bom dia, Caro Carlos Silva,

Relativamente ao assunto constante na sua mensagem infra e face a dados pesquisados e, também, cedidos por veteranos da Guerra do Ultramar, informa-se o seguinte:

O malogrado militar Claudino Almeida Cunha, 1.º Cabo Pára-Quedista, pertenceu à 2.ª Companhia de Caçadores Pára-Quedistas (2.ªCCP) do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 21 (BCP21), faleceu no dia 25 de Agosto de 1961, durante a Operação "Canda", em Angola.

Há referências do militar no livro "O Despertar dos Combatentes", da autoria de Joaquim Coelho, também Pára-Quedista, esteve em Angola (BCP21) e em Moçambique (BCP31), respectivamente, nos períodos de 1961 a 1963  e de 1966 a 1968. Em Angola, no período de 1961 a 1963, o escritor Joaquim Coelho, pertenceu ao mesmo Batalhão - BCP21 - do malogrado militar 1.º Cabo Pára-Quedista Claudino Almeida Cunha.

Transcrição de excertos do livro "O Despertar dos Combatentes" onde refere o Cabo Cunha:


Página 75:

" [...] O capitão Almendra, temendo a sorte do Pimentel, já se inquietava, porque minutos antes, ao sair de outro avião menos adequado para lançamento de pára-quedistas, o cabo Cunha havia sucumbido à queda-livre, sem que o pára-quedas se abrisse. Ao que parece, devido ao corte da tira extractora na longarina da porta do avião! [...]


Página 77:


"[...] Na hora do regresso faziam-se contas à vida ... A operação foi perfeita, com resultados bem mais consistentes do que o previsto. O capitão Almendra bem podia orgulhar-se do pessoal. Não fora a morte do cabo Almeida Cunha e tudo seriam alegrias. Mas a vida dos pára-quedistas está sempre presa por um fio ... que pode falhar entre o céu e a terra! [...] 


Esta mensagem vai com conhecimento do escritor Joaquim Coelho.


Se entretanto, chegar à nossa caixa de correio, mais informações sobre a questão em apreço, procederemos ao seu reenvio para o seu e-mail.


Saudações


A equipa do UTW


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From: "CARLOS MANUEL DOS SANTOS SILVA" <carlossilva42@live.com.pt>
Sent: Monday, June 28, 2010 9:53 PM
To: <ultramar@live.com.pt>
Subject: Procura de ex- Militares que estiveram nas ex- Províncias Ultramarinas     (CARLOS MANUEL DOS SANTOS SILVA)


Nome do responsável pelo anúncio (*): CARLOS MANUEL DOS SANTOS SILVA


O seu endereço de e-mail (*): carlossilva42@live.com.pt


O seu contacto telefónico (*): 214183566-969883216


 

Indique a localidade de residência (*): OUTURELA


Indique o (s) contacto (s) que deve (m) figurar no anúncio para ser contactado (*): carlossilva42@live.com.pt


Texto do Anúncio (*): BTPQ--1959-1961- DESAPARECIDO ATÉ AO MOMENTO, CONSTA QUE MORREU EM COMBATE EM 25 / 08 / 1961 EM ANGOLA -1.º CABO PÁRA-QUEDISTA CLAUDINO ALMEIDA CUNHA, TIO DA MINHA MULHER, FAMÍLIA ATÉ HOJE DESGOSTOSA, SOFRIDA, REVOLTADA, POR NÃO SABER DELE, NATURAL DE SATÃO, VISEU, SEM FUNERAL NEM INFORMAÇÕES DO SEU PARADEIRO.
EU CARLOS M S SILVA, FUI MILITAR NO RLL- RL- 2 EM -1ºT-80. JÁ PEDI INFORMAÇÕES AO EMFA
SEM RESPOSTA.
PEÇO E AGRADEÇO INFORMAÇÕES SOBRE O PARADEIRO, PARA DESCANSO DA FAMÍLIA PRINCIPALMENTE DOS IRMÃOS.
UM MUITO OBRIGADO.
OBS- ESTEVE NO BTP 21 ANGOLA


 A VERDADE:  

Aconteceu que a densidade da mata onde caiu o Cabo Pára-quedista Claudino Almeida Cunha era de tal maneira impenetrável que não permitiu que o corpo fosse encontrado, sendo infrutíferas as diversas buscas feitas nos dias seguintes à queda. Tratava-se de um local com terreno muito acidentado e muita floresta. O seu pára-quedas não abriu devido à ruptura da tira extractora. Depois se concluir pela impossibilidade da recuperação dos seus restos mortais, procedeu-se a uma singela homenagem com as devidas honras militares pelo seu falecimento.


Joaquim de Sousa Coelho – Pára-quedista em Angola de 1961 a 1963


 Mais tarde, o corpo do malogrado 1º cabo pára-quedistaClaudino Cunha foi recuperado e sepultado no Cemitério Novo de Luanda (Santana).i 


 Foto do Pimentel, também em perigo sobre a serra da Canda.



domingo, 20 de junho de 2010

A Guerra e a Descolonização

 




 


Os militares Portugueses cumpriram a sua missão, muitas vezes para além do que a Pátria lhes pedia.


 



Por causa da guerra, os combatentes viram muitos dos seus sonhos adiados ou perdidos. 



   AS CAUSAS DA GUERRA E OS TRAUMAS


 Depois da guerra em Angola, onde fundamentei a minha razão de basculhar tudo até encontrar a verdade, passados os anos do desespero e os efeitos da matança de 1961, comecei a perceber a dimensão do confronto de interesses dos países potencialmente desenvolvidos à custa da desgraça que caiu sobre os povos residentes nos países com grandes quantidades de matéria-prima e reservas minerais de grande consumo nos países industriais mais avançados.


Por causa das riquezas alheias, desencadeiam-se guerras que dilaceram os países em construção. Angola e Moçambique poderiam ter-se desenvolvido harmoniosamente e em paz se não estivessem por detrás os interesses dos gananciosos pelas ricas reservas naturais emergentes nesses países. E, só depois de tudo desintegrado pelas máquinas de guerra, tomámos consciência do que se perdeu, incluindo os laços de amizade e os meios onde nascemos e vivemos em harmonia com a natureza. Não fossem esses interesses antagónicos dos países mais desenvolvidos, o entendimento com os representantes dos povos com os quais estivemos em guerra poderia ter seguido o caminho dos interesses mútuos e ter-se-ia evitado tanta desgraça, ódios e prejuízos. Como já referi neste espaço, tenho familiares que foram escorraçados e gravemente afectados no seu património e na sua dignidade. Mas, culpar os combatentes por tal desastre na descolonização é não querer perceber a dimensão das forças que nos combatiam no exterior das terras africanas e que impediam qualquer entendimento com os povos locais. A voracidade das forças em presença foi a causa da guerra civil desencadeada após a descolonização.  


Os danos da guerra são dolorosos e deixam feridas difíceis de curar. Além da destruição dos bens, perdem-se amizades e as relações entre seres humanos não valorizam a vida e a sua essência. É contra todas essas perdas que procuro reagir dando valor à riqueza que nos resta - fortes laços de amizade e camaradagem porque, entre os intervenientes nas guerras, esses valores foram a trave mestra a segurar a frágil condição humana de muitos combatentes, nos primeiros tempos de missão. Alguns perderam a bússola das suas vidas, numa agitação anormal da consciência e das emoções; não fora a mística do companheirismo e a desgraça dos traumatizados teria atingido uma dimensão muito mais grave e penosa para a sociedade portuguesa.      


          Joaquim Coelho


 VER:  https://guerracolonial61.wixsite.com/coelho



Material de guerra apreendido ao inimigo. Armas que nos poderiam matar!


 


Os "retornados" perderam muitos dos seus bens, as ligações à terra onde nasceram ou viveram felizes, mas sobreviveram há chacina, porque a tropa portuguesa nunca os abandonou.


leopoldville-postcard-1960.jpg 


É preciso lembrar que, no antigo Congo Belga, em 1960/61, foram chacinados mais de três mil colonos brancos, que recusaram abandonar as suas lojas e haveres, mesmo depois dos militares belgas embarcarem nos últimos aviões existentes no aeroporto de Leopoldville, com com a independência.


Mais de dez mil combatentes perderam a vida na guerra.


 





 


 

terça-feira, 23 de março de 2010

Música Fascinante



Aos amantes da música africana, vejam este link:


 


https://videos.sapo.pt/t6D6S3mfbFzhMvFAfC8n


 


Bem-vindos a este espaço.


 



 


 


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segunda-feira, 22 de março de 2010

Dia da POESIA


Sendo ontem o Dia da POESIA, aqui deixo dois poemas dos tempos que andei por África:


 


    A MÍSTICA DO BATUQUE


 


Em noites de refulgente luar


os corpos todos se agitam


ao som do tam-tam-tam


onde mais emoções palpitam.


 


- Por quinze tostões e um doce


podes ter o meu corpo quente


não pagas imposto, e se fosse


uma noite bem diferente?


 


Assim falou a mulatinha


de voz piamenta e terna,


ao roçar na minha perna!


 


É a miséria madura e crua


da menina que se oferece nua


na esteira em noite escura


ao som das marimbas pretas


dos batuques desta rua


onde gemem as silhuetas


que rasgam negros desejos.


 


A vida nos bairros fantasmas


onde resvalam os beijos


e os lamentos de solidão...


são arestas, são escamas


a torturarem a tesão!


 


             Luanda, Janeiro de 1962


 


  Joaquim Coelho




 



 


   AEROGRAMA PERDIDO


 


Quando eu regressar da jornada


que a Pátria me determinou


porei fim a esta angústia


de saber aferir a razão


porque falharam os aerogramas


que me davam a ilusão


de acreditar no amor adiado


como forma de salvação


do coração destroçado.


 


As vicissitudes são tantas


neste espaço dos medos


que já não sei saborear o amor


nem do teu corpo os segredos


e o coração amarrado


à penúria dum papel


é como um corpo amolgado


antes de saborear o mel.


 


Não me deixes na solidão


destes caminhos minados


onde se rompem os corpos


feridos e ensanguentados


na tragédia das picadas


perdidas na paisagem


com molduras de espingardas.


 


Deixa-me olhar a imagem


que um dia te roubei


na planície da juventude


onde desagua toda a verdade


dum amor que nos uniu


na lonjura da distância


que esta guerra pariu.


 


Não estilhaces o meu corpo


com a arma do silêncio…


a fuga não é razão


para me desamparares


no meio deste sertão…


se os seres nascem aos pares


o meu é par do teu


como o teu é par do meu.


 


Antes do fim há um sinal


que revela as emoções


de quem anda à deriva…


ainda espero a carta


que me traga a salvação


e o consolo do refúgio


que está no teu coração.


 


        Nacala, Novembro de 1966


 


  Joaquim Coelho




 


 

quinta-feira, 4 de março de 2010

Pemba - Moçambique, FESTIVAL TAMBO



Para os que amam ou gostam da cultura africana, especialmente para os Moçambicanos, temos o Festival Tambo Interrnacional:


 



 
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Tambo Tambulani Tambo

E-mail Tambo Tambulani Tambo
tambotambulanitambo@yahoo.com
Vitor Raposo + 258 82 66 13 400

Novidades - Tambo no www



 


Ver link: http://tambo.nl


 


Vídeo de 2009:  <object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/X_X2kgHptrU&hl=pt_BR&fs=1&"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/X_X2kgHptrU&hl=pt_BR&fs=1&" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="295"></embed></object>



 


   Parabéns aos participantes.


 




 

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Memórias de Angola

 



A CAÇADA ATRIBULADA

 

O Zé Trigueiro é mestre na caça grossa; manhã cedo, com os primeiros raios de sol, avança de mira apontada na pakassa e não se deu conta do emaranhado de lianas que servem de armadilha para reter a viatura… mesmo assim não perde de vista a sua caça. Acontece que uma manada de pakassas se enfureceu e tentou encornar as viaturas que ficaram à mercê dos seus ataques raivosos. De cima das árvores que nos protegiam da fúria dos corpulentos animais, conseguimos abater duas boas pakassas que ajudaram a aliviar a dor do que estava para acontecer.

Mas nem tudo está de feição nestas matas da estrada do Úcua; enquanto toma a merecida refeição do almoço, o filho que é traquina, andava a deambular junto das máquinas dos serviços de estradas, e deu-lhe para ir dormir dentro da pá da escavadora, sem ninguém desse por isso! A presunção da tragédia está ali a 20 metros, nas águas que correm avassaladoras no rio Úcua. Mal o Zé Trigueiro deu pela falta do filho, logo imaginou que tivesse sido levado pela corrente; todos se apressam a procurar nas margens perigosas do rio, sempre até longe. Coração de pai faz chorar no desespero da incerteza da perda do filho. Passam os minutos e mais de duas horas de buscas infrutíferas, o homem senta-se, pesaroso, mãos na cabeça, inconformado com tal infortúnio.

 Os companheiros de caça presentes tentam mais uma vez encontrar o corpo preso nas ramagens que orlam as margens. Momentos de espanto e de contida alegria; o rapaz levanta-se da sua soneca lá no cimo da pá mecânica e abre os braços num amplo gesto de espreguiçar! O pai, descontrolado, ralha com o filho, mal este desce da máquina, leva logo uma bofetada que o atira para o chão. Mal refeito do susto, o homem abraça o filho e tudo volta à calma messiânica.

Ainda houve tempo para caçar algumas peças destinadas ao mercado da Maria da Fonte, onde o Zé tinha o seu posto de venda de carne fresca.

 

Luanda, Maio de 1962

 Joaquim Coelho


Acácia em Luanda (2).jpg


A-a caminho de Carmona..jpg


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