domingo, 7 de maio de 2023

Memórias do Dia da Mãe, em tempo de guerra

Em Homenagem a todas as Mães do mundo

Porque o Dia da Mãe merece ser festejado com todo o Amor que devemos às nossas Mães, aqui deixo algumas memórias que jamais esquecerei.

A longa caminhada da vida, nos tempos de crescimento, formação, guerras, trabalho e viagens com diversas finalidades, perrmitiu conhecer outros povos, diferentes formas de vida, sociedades mais ou menos desenvolvidas, sempre na perspectiva de colher amplos conhecimentos para o melhor desempenho e partilha comunitária, em prol de um mundo mais solidário com gente feliz.

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Pequeno apontamento do Iníco da complicada vida Militar:

- Primeiro Capítulo do livro "O Despertar dos Combatentes"  publlicado pela Clássica Editora - onde consta carta enviada a minha Mãe:

                DO PARAÍSO AO INFERNO...

         Serão os sonhos determinantes na vida dos seres humanos? Alguns sonhos podem ser uma espécie de luz que alumia os caminhos mais sinuosos, mesmo quando a claridade de cada dia parece escapar às turbulências dos tempos desta vida. 

Na rotina da paradisíaca Granja do Marquês, nas planícies de Sintra, o Joaquim Sousa dá os últimos retoques nos paramentos do Tenente-capelão Figueiredo, antes de agarrar as cordas dos sinos que alertam a vizinhança da Base Aérea 1 para o dever dominical. A missa começa às nove horas em ponto e a capela apresenta-se cheia, nas vésperas do Natal de 1960. No final da missa, enquanto o ajudante arruma as galhetas do vinho e da água, o padre deixa transparecer a sua inquietação sobre o futuro das terras ultramarinas: “Sabes, Joaquim, o dr. Vasco Garin já não conseguiu demover as Nações Unidas de aprovarem uma resolução anti-colonialista que impõe a Portugal o reconhecimento da autonomia aos territórios ultramarinos. E tudo indica que Portugal perdeu o apoio dos países da Europa considerados amigos, porque votaram a favor dessa resolução, o que supõe a sua hostilidade à política portuguesa actual.”

O  Joaquim Sousa sente-se confuso com as palavras do capelão, e tenta perceber o efeito da “resolução anti-colonialista”, perguntando:

- Será que a tropa vai sofrer algumas consequências, senhor capelão?

- Meu rapaz, conforme as coisas estão a evoluir, não tarda muito a estarmos todos envolvidos.

Deixando transparecer um sorriso, o capelão deu conta de que as caixas de vinho destinado à consagração nas missas estavam a diminuir a olhos vistos. Pudera! As tardes de sossego, em companhia dos faxinas da messe de oficiais, têm proporcionado bons lanches de pão com bife, regados com o licoroso vinho oferecido pelas casas de vinho do Porto. Durante quatro semanas a substituir o sacristão deram para baixar os lotes de caixas armazenadas na arrecadação da capela!

O Sousa fica a matutar nas consequências da “resolução”: “Agora que iniciei a especialidade de “circulação aérea” e subi no nível da qualidade do rancho é que a política internacional faz abanar o Governo?”

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A alvorada do dia 23 de Janeiro de 1961 deixa uma onda de inquietação em todos os militares da Base. Com algum nervosismo, os chefes determinam a proibição de saídas do aquartelamento, porque está tudo em prevenção. As patrulhas armadas posicionam-se nos pontos estratégicos, duas baterias anti-aéreas são colocadas junto à placa de estacionamento dos aviões de instrução, as metralhadoras pesadas, camufladas atrás da torre de controlo, apontam para a pista principal; os mais antigos dizem nunca ter visto tanto aparato e os comentários nada esclarecem.

Pelas 10 horas, dois cabos das transmissões em criptografia passam pela sala dos alunos pilotos e deixam a informação de que o paquete Santa Maria foi assaltado por gente comandada pelo capitão Henrique Galvão. A notícia espalha-se pela torre de controlo, chegando aos bombeiros e às camaratas. Dias mais tarde, sente-se uma preocupação crescente por causa do pessoal que compõe o pelotão da Polícia Aérea que embarcou para Angola, a fim de dar segurança às obras de construção da Base Aérea do Negage, gente que todos conhecem. A notícia de que o paquete com os “revoltosos” se dirige para Angola não agrada a ninguém. O Vizela pede ao sargento Fernandes que o nomeie para a secção de extintores portáteis, para poder ter fins-de-semana livres. É aí que reúne os amigos fandangueiros, para falar da situação política e militar. As primeiras medidas tomadas pelo presidente John Kennedy sobre África são de apoio à autodeterminação dos territórios portugueses do Ultramar. O aluno piloto Malaquias de Oliveira deixa transparecer alguma inquietação, prevendo que o curso não vai servir só para alargar os horizontes do Minho ao Algarve e ingressar na aviação civil, mas pode passar pelas terras de África. O espectro da guerra começa a condicionar os sonhos do pessoal que escolheu as proveitosas especialidades da Força Aérea para conseguir um futuro mais risonho na vida civil (em 1966, este piloto foi destacado para a guerra em Moçambique, onde o seu avião T6 foi abatido por anti-aéreas da Frelimo, que lhe causaram a morte na zona de Marrupa-Révia).       

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Os aviões Harvard T-6 continuam a levantar voo com os jovens alunos que um dia sonharam confundir-se com os pássaros; são mais de vinte a levantar voo em cada parte do dia, de manhã e de tarde. Os mais determinados saem do perímetro de treino, configurado pelo triângulo entre Mem Martins, Peniche e Praia das Maçãs, e vão mostrar habilidades aos seus conterrâneos ou lançar cartas de amor às namoradas, fazendo acrobacias que lhes estão interditas e abusando da lei da gravidade. Por diversos percalços, nem sempre regressam à base. Os controladores, instalados na torre que domina a planície da Granja do Marquês, tudo registam - quedas por avaria ou por falta de combustível - e anotam as peripécias dos desastrados candidatos a aviadores! Mas também os casos insólitos ficam gravados na memória dos componentes da guarnição, como o que foi denunciado por um telefonema que alertou a torre para o “furacão” que passou sobre a esplanada da Praia das Maçãs, espatifando cadeiras e mesas. Identificado como sendo o avião 1723, pilotado pelo cabo-instrutor Barbosa, logo o comandante, coronel piloto aviador António de Oliveira, ordenou ao oficial de dia que recebesse o “herói” com honras de prevaricador e o metesse na “casa da rata”. Privado da liberdade dos pássaros, que via através das grades, e suspenso de voar, teve tempo para perceber que aquela não foi a maneira correcta para convencer o pai da Nelinha (que ele ama com todas as forças) a mudar de ideias e autorizar o namoro!  

          Ontem, pelas três da tarde, a perícia do sargento-instrutor Adalberto fez planar o avião T6 Harvard, com o motor pifado, desde Pêro Pinheiro até à margem da ribeira que passa ao fundo da pista sul... ficando do outro lado, com as asas partidas e soltas da carlinga que se incendiou. Foi rápida a intervenção dos bombeiros, cujo carro, correndo pela pista em direcção ao desastre, afocinha dentro da ribeira, obrigando à utilização dos extintores portáteis para socorrer os dois ocupantes (instrutor e aluo). Nem todos os extintores funcionaram correctamente, o que implica um processo de averiguações ao azarado Vizela. O major Cerqueira, mais conhecido pelo major “colhões”, instrutor da Isabelinha Bandeira, filha dos condes de Rilvas, manda arquivar o processo por não terem sido apuradas culpas.

Depois de momentos de aflição, os controladores riem às gargalhadas! Na iminência de um grave acidente, lançaram o very-light salvador; o piloto, que se preparava para aterrar em cima de outro avião que ainda rolava na pista, acelera para borregar e vê a carcaça cair e rodar sobre a asa direita, saindo da pista, enquanto o motor percorre mais de cem metros aos trambolhões! Calmamente, o piloto sai da carlinga e vai ver o estado em que ficou o motor. A gargalhada é inevitável.   

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Ao cair da noite de sexta-feira, para manter os hábitos da roubalheira, o sargento Gabino incumbe o cabo-mecânico Alcides, um matulão de Montalegre, de empurrar pela pista abaixo, até à estrada, o bidão de duzentos litros de gasolina escondido debaixo das ervas da valeta. Em tão má hora o fez que o rapaz foi detido pela guarda da Base e metido na “casa da rata”. Foi o maior azar que algum especialista poderia ter; punido com dez dias de prisão, desencanta-se com a vida e entra no mundo do crime. Em poucas semanas, passa de lorpa a angariador de prostitutas que contrata em Lisboa, aos fins-de-semana, fazendo-as entrar no hangar onde uma cama improvisada serve para consolar os amigos que pagam a respectiva taxa de uso. A meio da tarde, passa pelas camaratas a apregoar a chegada das meninas: 

- Eh, pessoal, quem quer “foderi”? São duas gajas boas como milho.

Aquele modo de vida tem curta duração, porque um “oficial de dia” mais atento descobre a marosca e enrola o rapaz numa folha de papel com 25 linhas. Chegado ao comandante, este determina a nomeação do cabo Alcides para Angola, como castigo. Antes do embarque, arranja maneira de legalizar uma das miúdas como sua esposa, com direito a transporte por conta da tropa. Soube-se, mais tarde, que o negócio corre de vento em popa nas terras africanas! Segundo a filosofia de Stendhal, “qualquer bom raciocínio é ofensivo”: porque o raciocínio pode descobrir o mal que dá prazer, sendo por isso que a natureza do ser humano gosta de viver com um pouco de ignorância reconhecida... Será por isso que há burros espertos?

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O Sousa sente-se confuso com os estranhos sonhos que lhe tolhem o sono. Nas últimas noites, só vê paisagens africanas, com selva por todos os lados e muitos elefantes rodeados de leões famintos. A noite passada, teve outro sonho, muito mais realista, e escreve à mãe, dando-lhe conta da inquietação:

“Minha Mãe, tive um sonho que me perturba o pensamento quanto ao futuro!

Estava um frio cristalino, quando passei pela Baixa de Lisboa e vi muitos mendigos de olhar baço a estender a mão e nem a santa madre igreja lhes dava abrigo na velha Sé Catedral.

Entrei num barco velho, acostado na Gare de Alcântara; no tombadilho escorregadio, andavam umas velhas a limpar os excrementos que as gaivotas cagaram para a guarnição de S. Bento. O timoneiro limpava o leme ao fato acolchoado do homem que brandia a cruz em direcção ao céu. Bem agarrado ao leme, o timoneiro, que foi lente em Coimbra, arregalava os olhos na direcção do sul e cochichava ao ouvido do homem do crucifixo; mas o céu não respondia e ele sorria, sorria... com a cruz dependurada ao peito. Impaciente e temeroso, eu queria voltar para terra e limpar a neblina dos olhos... tomar a vida pela mão e sonhar. Mas o barco, atulhado de morcegos e beatas, perdeu-se no mar e o homem rude, de nariz alongado, deixou cair os olhos sobre as águas, dizendo: «Portugal d’aquém e d’além mar está comigo». Senti um solavanco na carcaça e o barco estava a adornar... Lancei-me à água e nadei, nadei, até me sentir flutuar no tempo, sem nunca mais encontrar o cais. Já muito longe de Lisboa, vi duas ilhas ancoradas! Seriam ilhas? São Tomé e Príncipe? O calor asfixiava naquela paisagem paradisíaca, onde dois homens, calmos como a maresia, pescavam à sombra dos coqueiros que se atiravam para o céu! Ajudaram-me a levantar e comecei a ver com mais claridade: muitos soldados assustados, passavam pelo aeroporto, embarcados na ilusão duma pátria longínqua; meus irmãos desprevenidos e acorrentados às ruínas do império que espera as malfadadas espingardas que uns tipos destemidos lhes tinham prometido. Perdi o pensamento no preciso momento em que chegou o homem do leme, o da cruz vinha atrás –, mandou servir um refresco que me soube a fel; mandou fechar todas as saídas, para o homem da cruz converter os soldados: «Ides combater os infiéis que mataram inocentes polícias!» Todos ficaram a tremer, quando o homem do leme mandou embarcar o povo sob o seu comando. Mal vi uma fresta de luz e comecei a pensar, levei uma pancada na cabeça que me causou arrepios... Era o homem de fato acolchoado a bater com a cruz! Percebi que só os motores podiam falar... o avião seguiu rumo a Luanda, onde encontrei vultos a correr, pareciam macacos; em vez dos elefantes, vi os massacres que deixaram os mortos a ornamentar as ruas, onde as crianças, chorosas, agonizavam, ensanguentadas no sangue dos pais. Um estremecimento arrepiante!... Acordei num sítio com silêncio... tinha o pescoço dorido!

Deste seu filho militar, que suplica preces aos deuses da paz e da concórdia. Acordei na Granja do Marquês, onde os aviões barulhentos nos preparam para a guerra.” 

Com a chegada do pessoal que vem de Lisboa, nota-se um ar sombrio, mesmo de inquietação. Os murmúrios começam a espalhar-se pelas salas dos pilotos, nas oficinas e na torre de controlo: “Os jornais de Lisboa trazem notícias alarmantes do terror em Angola!” “Consta que são aos milhares os corpos barbaramente mutilados pelos terroristas”. A notícia espalha-se por todos os lados, causando alarme entre o pessoal mais antigo.

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Ninguém quer acreditar no que está publicado na Ordem de Serviço: “Todos os militares com menos de 18 meses de serviço devem apresentar-se na Secretaria das respectivas esquadras, durante esta semana”. Os especialistas mal classificados nos cursos e outros militares do serviço geral devem preparar-se para embarcar com destino à Base Aérea 3, a fim de frequentar um estágio de Polícia Aérea com a duração de três semanas! O desânimo é geral, sem ninguém perceber o alcance de tal determinação. São várias dezenas de inconformados com a situação, cada um a pensar no futuro empenhado. Polícia Aérea! Três semanas de preparação para a guerra? Por entre olhares sisudos e palavras balbuciadas a conta-gotas, vai-se espalhando a notícia de que grande parte dos componentes do pelotão de Polícia Aérea que defendia a Base do Negage foi aniquilada pelos terroristas. “Mas que fim tão inglório”, dizem alguns; “que azar do caraças”, dizem outros.

Entre embarcar, com grandes probabilidades de ser esquartejado, ou desertar, abandonando o futuro e uma vida normal, é uma escolha muito complicada para o Sousa. Mesmo sabendo que jurou defender a pátria e a bandeira, não vê esse compromisso estender-se para além da Lusitânia; no entanto, entende que desertar é um acto de cobardia e de abandono dos portugueses que estão sendo massacrados.

          Passando por um percurso cheio de peripécias, o Sousa chega a Luanda com vontade de ajudar a combater as hordas de selvagens terroristas que estriparam e esquartejaram inocentes no Norte de Angola. Preparado na dura instrução de caçador pára-quedista, embarca no avião da noite, sem ter ninguém a dizer adeus, sem se despedir dos familiares e dos amigos. Cultiva a ideia de que as lamechices só servem para esmorecer a vontade de vencer! Meses depois, enviou uma mensagem para o “Notícias de Penafiel”:

Neste momento de dúvida e de tristeza, sinto a nostalgia da ausência que me dá saudade. Vou abandonar a mãe-Pátria e partir para a nossa querida província de Angola. Apodera-se de mim o desejo de abraçar todos os entes queridos, os grandes amigos e colegas. Estou sensibilizado, mas não desejo ser herói nem famoso, não pretendo conquistar o que quer que seja. Sou chamado a defender a Pátria, a manter a soberania portuguesa. Parto confiado na protecção omnipotente. Será sempre essa a minha defesa, o meu refúgio. Agora que me afasto de vós, pedi a Deus que eu não tarde a voltar. É meu dever; por isso vou com a fronte erguida.”

       APRESENTAÇÃO

 

Parti às seis da tarde do aeroporto,

    sem ninguém a dizer adeus.

Com os anjos voei no azul dos céus,

    com vontade de continuar vivo,

porque ao destino nunca me esquivo...

 

     sem olhar p’ra outra banda

desembarquei na pista de Luanda,

onde encontrei a ausência do sabor

e a pobreza das vidas sem amor!

 

Caminhei embrulhado no destino

    e fui condenado ao silêncio...

A importância de nascer menino

esvai-se em cada hora de combate,

mesmo que os sinos toquem a rebate! 

 

Já ouço o estrondo dos canhões

    vomitando fogo nesta terra...

pela tarde regressam os aviões

com os mortos vitimados na guerra

     onde uma mina obscura

nos causa grande amargura.

 

Ainda espero uma carta secreta

que me deixe a porta aberta...

pois não sei se outros saberão

porque se morre a bem da Nação! 

 

           Luanda, 1961

           Joaquim Coelho

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terça-feira, 25 de abril de 2023

Tempo de Esperança

Comemorar o 25 de Abril

sem esquecer os "capitães" cobardes e traidores que desprezam

os Antigos Combatentes

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AOS COMBATENTES

 

Amigos e camaradas combatentes

Não nos deixemos amofinar…

Mesmo velhos, somos valentes

E aos ignorantes vamos ensinar.

 

Não estamos aqui para bajular o poder dos homens pequenos… Eles não entendem as noites desavindas passadas nos confins das matas africanas.

Vivemos tempos tresloucados e ao ritmo dos burros sem freio, que nos perturbam a vida com mordidelas nos proventos ganhos à custa do esforço de muitos anos de trabalho profícuo e comunitário.

É na barafunda politiqueira que se perdem os últimos valores que fazem de nós homens maiores do que o tempo das descobertas modernas, porque o desconcerto programado não consegue ceifar o carisma do espólio que doamos à Pátria.

Glória aos homens Combatentes, a nossa força não abranda com o escárnio dos homens pequenos, homens desprovidos de sentido patriótico, que imaginam que estamos mortos.

Sem desespero e sem esmorecimentos, mesmo na jeira conspurcada pelos energúmenos poderes que nos atiram para o precipício, mesmo com a esperança despedaçada, estamos longe de aceitar a despedida sem darmos os açoites que nos merecem.

E quando o espírito da fraternal camaradagem atingir o auge das forças emanadas nos direitos que nos negam com desdém, o estrondo dos nossos clamores enraivecidos terão o efeito dum cataclismo desbastando as bestas que nos comprimem a vida.

Eventualmente, os que se vão despedindo sem usufruírem do reconhecimento da sua dádiva à Pátria, serão os que vão rogar por nós e pedir piedade por aqueles que um dia levarão nas trombas, tal é o azedume acumulado!

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domingo, 23 de abril de 2023

Fontes de Conhecimento

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A leitura é fonte de conhecimento que ajuda a libertar a mente e a vencer com sucesso.

O mundo precisa de mais gente com coragem para mudar, gente louca que avance contra as injustiças sem olhar aos juízes que nos julgam com o sentimento farisaico dos deuses endeusados à servidão dos poderosos e do vil dinheiro. Precisamos urgentemente de gente corajosa, gente que se desprenda do sofá e venha para a rua protestar contra os vilões que nos atrapalham a vida e corrompem os dias de esperança. Segue o teu caminho como sendo construído por ti, busca a felicidade dentro de ti próprio para a poderes partilhar plenamente.

A mais eficaz protecção dos nossos direitos está no grau de conhecimentos que possuimos.

Clik naimagem para ver temas:

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sábado, 11 de março de 2023

Testemunho de Guerra na Guiné

Em Memória dos que “ficaram para trás”

Guiné - Guilege a Gadamael

 Nestes tempos sombrios da actualidade portuguesa, é nosso dever realçar os feitos extraordinários dos antepassados, que nos podem reanimar a esperança de lutarmos com convicção para melhorarmos o rumo da nossa vida colectiva, dentro duma nação com história e valores de dimensão mundial.

Os Combatentes, portugueses nas guerras ultramarinas, foram os continuadores das memoráveis descobertas e souberam partilhar muito das suas vivências com as populações das terras para onde foram destacados. Mas a guerra é sempre incómoda e destrutiva; pois, é natural nenhum ser humano desejar a guerra.

As lembranças da guerra fazem parte de nós… são o espólio que não conseguimos entregar no quartel aquando da desmobilização; fazem parte do nosso espólio de combatentes participantes numa guerra estranha e mal compreendida! Na embriagues do destino, fomos atirados para a guerra e confrontados com situações de espantar! Tremendas horas de sofrimento e perigos vários. Uns mais que outros, todos sentiram a mordedura da guerra nas suas vidas, tanto nos acampamentos e destacamentos espalhados entre as savanas e matas, ou nos aquartelamentos das vilas ou aldeamentos mais protegidos.

Clik na Imagem para ver Vídeo:

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Porque a verdade da guerra merece ser divulgada com testemunhos dos intervenientes directos, aqui fica mais um relato de quem viveu momentos de graves perigos em complicadas situações entre a vida e a morte.  

Joaquim Coelho

(Combatente em Angola e Moçambique, Repórter de guerra no Vietnam e Rodésia)

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José Casimiro Carvalho

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Favoritos  · 19 de Janeiro  2023· 

Os Paraquedistas...entre TANTOS HERÓIS

Heróis de Portugal...quem foram. Quem são?

No meu ponto de vista, e na época contemporânea, foram e são ... Todos, que sob a égide da bandeira de Portugal, deram TUDO pela Pátria. E ficávamos por aqui, seria normal, mas eu quero ir mais além. Nem sempre quem pegava numa arma era ou foi, ou é o Herói, e por isso vou apenas cingir-me à Guerra do Ultramar. Jovens arrancados à força, das suas famílias, do seu lar, da sua terra, do seu emprego. Mas para podermos avalizar, temos que nos reportar a esses tempos difíceis da Ditadura, que nem todos sabiam o que era. EU não sabia. Quem fosse Patriota, apresentava-se para cumprir o difícil dever para com a Nação...como militar. Dentro desses subdividiam-se por capacidades natas ... ou não, os mancebos, uns para secretaria, outros para vagomestre, criptos, atiradores, enfermeiros, minas e armadilhas, Comandos, Fuzileiros, etc, etc.…numa interminável lista de Especialidades. Uns foram voluntários, outros escolhidos. Dentro dos escolhidos, eu fui “voluntariado para” servir nas Operações Especiais (vulgo Rangers). Acreditem, nos primeiros 15 dias em Penude Lamego, se pudesse fugir, tinha fugido, tal a dureza e terror da instrução aí ministrada. Apesar disso tudo, aguentei, e aguentei, e se depois desses 15 dias me excluíssem desse curso, preferia morrer. Nesses tempos, os “Rangers” eram sargentos e oficiais, ao contrário de todas as outras tropas, Especiais ou não.

Terminado este preâmbulo, gostaria de salientar uma coisa, eu como cabo miliciano, fui para Estremoz uns meses, e depois fui com a CCAV 8350 para o CTIG (Guiné). Aí, fomos render os Gringos Açorianos, e nos mantivemos de OUT 72 a Maio de 73. Esta data marcante, persegue-me desde então, pois foi, quando retiramos de Guileje para Gadamael, com um morto “às costas”, o motivo vou-me escusar de reportar aqui, pois as opiniões divergem, e por isso, nem perco tempo. Dessa retirada, na qual não estive presente, por motivo de andar a comandar os reabastecimentos de Cacine para Gadamael, por barco, que posteriormente seguiram em coluna para Guileje. A Data (fatídica) foi 22 de Maio de 1973, véspera do dia da Unidade de Tancos (Casa Mãe dos meus Heróis), mal eu sabia que o meu tormento, terror e Inferno, estava para começar.

Em Cacine ouvi que a guarnição de Guileje abandonou o mesmo, bem como toda a população (ver Livros Retirada de Guilege e Elites Militares), e fiquei estupefacto, seria possível? Eu apenas me atrevi a perguntar se tinha sido sublevação, ordens superiores ou traição?

Sei que já em Gadamael, começou um apocalipse de metralha e fogo, inverosímil, para um jovem furriel de 21 anos, os mortos eram aos montes, os cadáveres na enfermaria eram regados com creolina, tal a pestilência, os ataques quase ininterruptos, eram a constante, ninguém tinha nada, nem comando, com a honrosa exceção do sr Capitão Ferreira da Silva (Ranger/Comando) oficial do quadro, que nunca abandonou os seus Homens, e os comandou “debaixo de fogo”, Homem aguerrido, ladeado por um punhado de valentes, que estoicamente aguentaram TUDO, entre eles eu e o Cabo Raposo (Açoriano).

Mesmo assim, e depois de um Fiat G-91 ter largado uma bomba sobre uma Base IN, ali perto, a Força Aérea quase que estava impedida de nos ajudar, malgrado as incomensuráveis dificuldades porque passávamos. Haviam ataques em Guidage, em Gadamael, entre tantos. Eu presumo que Spínola decidiu sacrificar Guileje e Gadamael, em prol de Cacine. Guidage estava a ferro e fogo, assim o digam os Comando, Páras, Os Comandos Africanos, O Grupo do Marcelino da Mata e todos os militares envolvidos na chacina e carnificina a que fomos TODOS sujeitos, em prol de quê? 25 Abril? conluios obscuros, não sei dizer.

Em 4 de Junho, a Patrulha de que fiz parte com o Alferes Branco, caiu numa terrível emboscada a 1200 metros de Gadamael, onde duma rajada morreram 4 homens, e feridos um. Ficamos dois, prostrados a fazer fogo, numa luta perdida, e por isso resolvi ordenar a retirada.

Os quatro corpos foram resgatados pelos Paraquedistas, num estado "lastimável" ...

A situação em Gadamael era tão trágica, que, finalmente, foram enviados Paraquedistas, que estavam em Cufar, para nos apoiar, e a situação era de tal forma grave que acabou de ir para Gadamael todo o BCP. Heróis, para nós, “Tropa Macaca”, pois começaram a “bater a ZA” com risco de vida, e foram limpando gradualmente o espaço envolvente de Gadamael. Nesses períodos conturbados, fui ferido em combate, e estoicamente retirado pelos Fuzileiro, em bote, para a LFG Orion, e conduzido para Cacine, entre muitos outros feridos. Aí chegado, fui tratado, e como não era “muito grave” colocaram-me a chefiar a limpeza do Quartel, ao mesmo tempo que me disseram: “A tua Guerra acabou”.

Os feridos e mortos chegavam em Sintex e botes, era um caos, e eu, loucamente, ofereci-me voluntário para voltar para Gadamael, onde “os meus homens morriam”, com uma Kalash (AK-47) na mão, afirmando que varria aquela merda toda se não me enviassem para o Inferno (Gadamael). Já em viagem num Sintex, olhava para as margens, aterrorizado, a pensar num RPG, ou umas rajadas da margem.

Cheguei, integrei-me e continuei na minha Missão de Militar das FA’s. Muito haveria de contar, tantos pormenores do terror, e porque conto isto? É que estou a fazê-lo, porque os Paraquedistas acabaram com o Inferno e com os Turras dessas ZA. Eles tiveram feridos, e não foram poucos, mas eles, estavam bem preparados, endurecidos como a aço, nas forjas, escola de TANCOS, onde temperavam e de que maneira esses HOMENS e os preparavam para todas as situações. Instrução dura...Combate fácil.

Clik na imagem para ver Vídeo:

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Entre tantos, escolhi hoje falar nos Paraquedistas, Heróis Lusos, duma Nação de Guerreiros intemporais, guerreiros irmanados na metralha, no sangue no Suor e nas dificuldades, aí se vêm os verdadeiros Homens de Portugal.

Abençoados

QNPVSC

PS : Os Paraquedistas eram da Força Aérea, hoje são do Exército. Sei que há algumas “rivalidades”. Não devia haver. Afinal, não são todos “Os Meus Heróis” ?

José Casimiro Carvalho

Ex furriel de Operação Especiais - Ex Combatente

(In Facebook)

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domingo, 23 de janeiro de 2022

Honra aos Soldados Portugueses

Louvados e reconhecidos pelo mundo…

Desprezados e ostracizados no seu país, Portugal.

Assim tem sido o fadário dos militares portugueses, ao longo dos últimos 50 anos. Tal como este general Americano, muitos outros testemunharam de perto as qualidades dos soldados portugueses.

BRUTAL, MAS FACTUAL, UM HINO DE LOUVOR AOS SOLDADOS RASOS PORTUGUESES. O General dos EUA, William C. Westmoreland, que em discurso ao Congresso disse:  

"Querem vencer o Vietname, senhores? Dêem-me 8.000 soldados desta gente, e ainda este ano o comunismo cai nas terras da Indochina.”

“Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem soldados mais brilhantes que os do exército português, em cujas fileiras vi desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada dum Império condenado.

Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida gente portuguesa, que sustenta, há mais de dez anos em três frentes de guerra, contra uma poderosa força oculta, a mais encarniçada e gloriosa luta.

Aqueles homens que desconheciam os efeitos de uma bomba H ou o simples apoio dos helicópteros, provêm de terras desde as montanhas às planícies, cada um com seu conto pessoal e motivação para ali, a 10.000 km de casa, irem defender os ideais de uma nação há muito esquecida numa Europa dividida.

Tentado fiquei, pois, a dizer que nessa mesma Europa existiam três verdadeiros poderes, cada qual com a sua sombra no Mundo: - A Europa Americana, a Europa Russa, e Portugal.

E é essa raia de gente a quem se pede tanto por tão pouco que, com meios tão escassos e de modos bem simples, carregando na alma a sombra do Império Português, não precisavam do sabor da Coca-Cola, da experiência da droga ou de cultura hippie para combater.

Simplesmente faziam-no, e não abandonavam as armas por uma causa errada, mas defendiam-na não só pela gente lá de casa, mas pela casa lá da gente.

De Portugal, o canteiro mais velho da Europa, vi frutos verdes ou maduros a lutarem lado a lado com igual coragem, como se o combate fosse o ganha-pão dessa gente.

Querem vencer o Vietname, senhores? Dêem-me 8.000 desta gente, e ainda este ano o comunismo cai nas terras da Indochina.” Publicação na revista TIME.

General William C. Westmoreland, em relatório ao Congresso dos EUA após a visita ao Quartel-General Português de Nampula, em Moçambique, 1971.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Início da guerra em Angola

LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER

    Aos que vão resistindo ao desgaste da vida e às investidas dos fazedores de crises que nos atormentam e hipotecam o futuro dos nossos filhos e netos e desgastam a nossa dignidade, venho lembrar que há 50 anos, em terras de Angola, os Pára-quedistas voluntariosos e valentes, organizados em pequenos grupos de combate, souberam elevar bem alto o nome e o valor dos Boinas Verdes.

    Continua na memória dos sobreviventes que hoje conseguem contar a história dos graves acontecimentos e dos horrores praticados por sucessivas vagas de bandoleiros sanguinários que chacinaram, esventraram e mutilaram crianças, mulheres, velhos e novos, pretos e brancos no norte de Angola. Desde o Úcua ao Quitexe, passando por Nova Caipenda, Quibaxe, Nambuangongo, Cuimba, Madimba, Buela, Zalala, Damba, Quibocolo, Bungo, Mucaba e tantos outros lugares da região dos Dembos, onde os sinais do sangue derramado por inocentes indefesos atiçou o sentido patriótico e fortaleceu o espírito de sacrifício na luta contra as hordas assassinas. Com reduzidos recursos e muita vontade de vencer, os Pára-quedistas estiveram na linha da frente na defesa das populações mais atingidas pela selvajaria dos bandoleiros da UPA (União das Populações de Angola). Foi na missão de socorro aos defensores de Mucaba, entrincheirados dentro da igreja local; no Bungo, as capacidades de liderança do Alferes Pára-quedista Mota da Costa permitiram uma defesa eficaz; na Damba, onde um pequeno grupo de Boinas Verdes conseguiu suster os ataques; na povoação 31 de Janeiro, o Tenente Pára-quedista Veríssimo teve papel destacado na organização da defesa da população local, onde contou com a fidelidade e apoio do cabo de cipaios Sebastião, do chefe de posto Vailão e do soba Camassa.

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    Foi no decorrer destas difíceis intervenções dos Pára-quedistas que tombaram os primeiros Boinas Verdes: o soldado Pára-quedista Domingos, durante a caminhada para Mucaba; o Alferes Pára-quedista Mota da Costa e o civil Caras Lindas, quando procuravam manter a ligação entre os que reparavam a ponte do Bungo e o soldado Pára-quedista Eugénio Dias, o civil António e dois bailundos que se dirigiram a uma fábrica de café e serração próxima na procura de material para a ponte.

    Para suprir a falta do Alferes Mota da Costa, o sargento Pára-quedista Joaquim Santiago assumiu a responsabilidade de coordenação das acções necessárias para evacuar os mortos e os feridos até à base do Negage. Helicópteros para evacuação não havia, apenas algumas viaturas civis e pequenos Unimogues eram os recursos disponíveis para percorrer picadas esburacadas e cortadas por árvores de grande porte.

    Com audácia e tenacidade na defesa das gentes dessas terras martirizadas pela sanha assassina dos bandoleiros os Pára-quedistas demonstraram todo o seu saber e espírito de sacrifício no cumprimento do dever “honrando a Pátria de tal gente”. Os elogios e provas de gratidão vieram de todos os lados, os jornalistas tentavam colher mais informações dos acontecimentos. Depois das primeiras missões de reconquista e ocupação das localidades vandalizadas, os Caçadores Especiais e outras tropas que foram chegando a Luanda começaram a ocupação definitiva da região atribulada. As Tropas Pára-quedistas, já reforçadas com mais efectivos, entraram em acção nas grandes operações levadas a cabo nos saltos em Quipedro, na serra da Canda e em Sacandica (localidade fronteiriça com o ex-Congo Belga, no extremo norte de Angola), com intervenção a nível de companhia. Com o Batalhão e a Força Aérea bem organizados, em colaboração com as tropas de quadrícula instaladas nas zonas afectadas pela guerrilha, as missões dos Pára-quedistas passaram a ser rotineiras e normais.

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    Para situar no tempo o sentimento dos que viveram os primeiros embates, não posso deixar de transcrever alguns recortes dos jornais de Luanda, onde são relatados episódios com intervenção de Pára-quedistas:

 - Da entrevista do Soldado Eugénio Dias, que foi ferido durante o ataque dos bandoleiros quando se encontrava na tal fábrica do café do Bungo, ao jornalista Moutinho Pereira do jornal “O Comércio”, publicada em 12 de Maio de 1961: “O ataque foi na segunda-feira, dia 8. Uma coluna de militares e civis, todos armados, seguiu até à ponte que os bandidos tinham cortado, para a reparar. Ao chegar à ponte o nosso comandante disse-me para ficar com os civis e protegê-los em caso de ataque, enquanto eles seguiam. Fiquei sozinho, pois sabia que os meus camaradas não podiam ir a pé… os carros não podiam atravessar a ponte… Ao sair da fábrica do café, já distanciados, ouvimos um tiro entre o capim. Claro que ficámos atentos e vigilantes. Mas aquela arma que disparou, por certo devido a algum acidente, dera o alarme. Logo se seguiu um tiroteio intenso. Encontrámos centenas de bandoleiros meio encobertos pelo capim. Os dois bailundos ainda não tinham feito a tropa e estavam desarmados, conseguiram fugir e refugiar-se na fábrica… Dei por mim a disparar a minha metralhadora ligeira para o meio do capim. A meu lado, o civil, ajudava-me como podia… Já ferido nas pernas, tentámos tomar outra posição…  À nossa roda tínhamos uma multidão ulutante, disposta a tudo para nos cortar a cabeça. Gritavam como demónios… Saltámos para o meio do capim alto, costas com costas, esperando o pior… por ali fiquei até perder as forças. Então, os meus camaradas conseguiram passar. Logo que se desenvencilharam daquela corja vieram à nossa procura…. Encontraram-nos feridos mas ainda conscientes no meio do capim, apertando de encontro ao peito, as nossas armas.”

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- O jornalista Sotto Mayor do “Diário de Luanda” na edição de 17 de Maio de 1961 publicou alguns depoimentos sobre a situação no posto de 31 de Janeiro.

    O repórter acompanhou uma das missões aéreas das avionetas do Aero Clube de Sanza Pombo e o chefe de posto e piloto Barros: “Aterrámos, cerca das 13 horas, no pequeno campo de aviação, onde se fizeram descargas de mantimentos e fomos convidados do chefe de posto Vailão e pelo tenente pára-quedista Veríssimo, dois valentes, à volta dos quais, pela sua actuação têm sido publicadas as mais largas reportagens. A defesa da povoação está toda concentrada à volta do edifício do posto, onde a população se recolheu. Pelas portas e janelas notam os sinais das lutas que têm sido travadas, estando as varandas do prédio barricadas com sacos de areia e arame farpado. Durante a refeição, servida numa grande mesa onde tomaram lugar grande parte dos “páras” e comerciantes da região, tivemos ocasião de ouvir do próprio chefe de posto, uma curiosa narrativa pormenorizada dos acontecimentos registados. – “Nós, em dada altura, verificámos que não tínhamos condições de defesa. Evacuámos, portanto, imediatamente a povoação. Toda a população foi connosco. Seguimos para a Damba, sede de concelho. Foi no dia 16 de Abril de 1961. Após a nossa chegada, deu-se o primeiro ataque à localidade. Colaborámos na defesa da Damba, neste e em mais três assaltos. Mas o nosso interesse era regressar o mais depressa possível ao 31 de Janeiro. No dia 27 conseguimos uma secção de Pára-quedistas, comandada pelo Tenente Veríssimo, para o nosso posto… Tivemos que lutar com muitas dificuldades. Eram obstáculos de toda a ordem – cortes profundos na estrada, árvores caídas, pontes danificadas. Era um nunca mais acabar.” O tenente Veríssimo relembra alguns acontecimentos passados na viagem: “Encontrámos ligeiras resistências durante o percurso de cerca de 84 quilómetros. No desvio para a povoação de Mucaba, a 12 quilómetros do destino, recuperámos diversos rapazes, portugueses africanos, que estavam prisioneiros dos bandoleiros no local conhecido por “Missão”. Temos tido diversos ataques, os primeiros de dia, os restantes de madrugada. Agora apenas têm tentado… mas depressa são repelidos e com baixas.”

   Não havia tempo para pensar onde estava a razão; a necessidade de defender as populações indefesas e os postos isolados do norte de Angola era a prioridade, e a nossa fidelidade à Pátria impunha que cumpríssemos essas missões das quais saímos triunfantes, embora com grandes sacrifícios. Depois destas, muitas mais foram levadas a cabo com sucesso, as quais mereceram rasgados elogios e os mais altos louvores. Orgulhamo-nos dos nossos feitos e merecemos o reconhecimento da Nação. Apesar do ostracismo a que foram votados, os Combatentes portugueses, intervenientes nas guerras ultramarinas, são o que resta da gesta de valores que a Pátria contempla; dos cobardes não reza a história… muitos dos nossos governantes nunca souberam honrar a Pátria nem os juramentos e tentam desvirtuar os valores que “mais altos se levantam”.

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- NAMBUANGONGO

- Arranque da "Operação Viriato" no dia 10 de Julho de 1961

Os comandos militares em Luanda mandaram para esta operação os Batalhões de Caçadores 96 e 114, masi o Esquadrão de Cavalaria 149, com o objectivo de conquistarem Nambuangongo aos terroristas da UPA que lá tinham o seu Quartel-general.

 Mas, os estrategas militares começaram a ficar preocupados com a lenta progressão das unidades que enfrentavam inesperados obstáculos para chegar ao objectivo. O comando da Força Aérea tentou pôr em prática os seus planos de reocupação de Nambuangongo e convocou o comandante dos Pára-quedistas com vista a fazer um lançamento por via aérea. Quando os chefes do Estado-maior do Exército perceberam a manobra, deram o alerta para que mais ninguém interviesse nessa operação senão as unidades que já estavam no terreno.

Apesar de progredirem com tremendas dificuldades, era ponto de honra que esse feito – reconquistar Nambuangongo – estava entregue ao Exército. E, quando as notícias vindas da frente (da ponte do rio Lifune e do rio Onzo) onde os Batalhões de Caçadores 96 e 114 sofriam as mais severas baixas, a Força Aérea fez a última tentativa de tomar Nambuangongo, à revelia dos pareceres do Estado-maior do Exército, dando ordem de embarque a um grupo de Pára-quedistas pronto para realizar o assalto ao quartel-general da UPA. Esse episódio ficou gravado na cabeça dos intervenientes, porque a voz do Tenente-coronel Maçanita fez-se ouvir, via rádio, com ameaças de mandar atirar contra os pára-quedistas que passassem ao alcance das armas dos seus homens. Ora, perante tal reacção, os Pára-quedistas que tinham saltado para fazer a balizagem encontraram o local abandonado e foram mandados regressar a Luanda, anulando a operação. É um facto que muito boa gente quis limpar as responsabilidades e determinados incómodos para a história da guerra em Angola..

In: “ESTILHAÇOS”, temas da guerra el Livro publicado em 2019 e 2ª Edição em 2020

16 - Saltos na Canda - Pimentel e Antunes.jpg

17 - CANDA - em perigo.jpg

38A - Songo.jpg

67 - Dembos - matas intransponíveis....jpg

91 - Ponte Quicabo.jpg

A- Bembe - o Samorinha dá música....jpg

105.A - Patrulha para Mucaba....jpg

106 - Bote dos fuzileiros... no rio Loge.jpg

102.A - Bembe - Horas de reflexão....jpg

Serra de Mucaba-Patrulha de combate.jpg

101.A - - Depois do assalto... fogo nas palhotas!.